Questão 2435873

Língua Portuguesa · 2020

Questão

ID 2435873

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Pressupostos e Subentendidos

Ano: 2020 Banca: GUALIMP - Assessoria e Consultoria Ltda Órgão: Câmara Municipal de Divino


Delírios de Honestidade.

Outro dia eu estava pensando em como seria o mundo se ___ pessoas fossem realmente honestas. Inclusive no mais prosaico cotidiano. Eu me imagino entrando em uma dessas churrascarias de luxo. Sento-me ___ mesa e peço um filé bem passado ao garçom. Ele me alerta:

— Não aconselho. O filé hoje está uma sola de sapato.

— Peço o quê?

— Peça licença e vá para outro lugar. Olhe bem o cardápio. Pelo preço de um bife o senhor compra mais de um quilo no açougue. Quer jogar seu dinheiro fora? V

ou para outro e escolho: salmão. O garçom:

— Se o senhor quiser, eu trago. Mas salmão, salmão, não é. É surubim, alimentado de forma ___ ficar com a carne rosada. Ainda quer? — Nesse caso fico com escargots.

— Lesmas, quer dizer? Por que não vai catar no jardim?

Ou então entro numa butique de griffe. Experimento um jeans, que está apertadinho na barriga. O vendedor aproxima-se:

— Ficou bom? Ah, não ficou, não, está apertado e não tenho um número maior.

— Acho que dá... ando pensando em fazer regime.

— Pois compre depois de obter algum resultado. Se bem que não sei, não... essa barriga parece coisa consolidada.

— Eu quero o jeans. Quero e pronto!

— Não vou deixar que cometa essa loucura. Aliás, falando francamente, o que o senhor viu nesse jeans, que nem cai bem nas suas adiposidades? Só pode ser a etiqueta. Meu amigo, ainda acredita em griffe?

Corro ___ casa de chocolates e peço um dietético. A mocinha no balcão:

— Confia nessa história de dietético? Ou só quer calar ___ sua consciência?

— E se eu quiser confiar, estou proibido?

— Pois saiba que engorda. Menos que o chocolate comum, mas engorda. E o senhor não me parece em condição de fazer concessões a doces. Não vou contribuir para o seu auto-engano, jamais poria esse chocolate nas suas mãos. Vá ___ feira e peça um jiló.

Resolvo trocar de carro. Passeio pela concessionária, escolho:

— Este vermelho, que tal?

— O motor funde mais dia, menos dia - alerta o vendedor.

— Parece tão bonitinho...

— Desculpe, mas você acha que a lataria anda sozinha? Já alertei o dono da loja, este carro está péssimo. Fique com aquele.

— Mas é velho e horroroso!

— Pode ser, mas anda. Está decidido, leve aquele. E não discuta!

O embate com a honestidade absoluta também poderia ser uma galeria de arte.

— Gostei daquele - aponto o quadro à marchande.

— Está precisando de pano de chão?

— Não... é que... bem, posso não entender de arte, mas achei bonito.

— Sinceramente, o senhor não entende mesmo. Isso aqui é um horror. Não vale a tinta que gastou. Está exposto porque o dono da galeria insistiu. Leve aquele, é valorização na certa.

— Aquele? É muito sombrio... eu queria alguma coisa alegre e ...

— Não insista. Sombrio ou não, vou embrulhar. Faça o cheque, é melhor pra você.

E numa loja de móveis? Mostro as cadeiras que me interessam. O decorador:

— É amigo de algum ortopedista?

— Está precisando de um? Posso indicar...

— Você é quem vai precisar. Essas cadeiras vão desmontar na terceira vez em que alguém se sentar. Fratura na certa.

— Caras assim e desmontam? Eu devia chamar o Procon.

— Se quiser, eu chamo para o senhor!

Pior seria alguma vaidosa querendo fazer plástica. O cirurgião examina:

— Hum... hum...

— Meu nariz vai ficar bom, doutor?

— Se a senhora se contenta em trocar uma picareta por um parafuso, fica! Agora, se ambiciona uma melhora significativa, o melhor é morrer e reencarnar de novo. Pode ser tenha mais sorte.

A paciente sai chorando. Eu, que vivo me irritando com vendedores, chego a uma conclusão: quero comprar o jeans que me oprime a barriga, o chocolate que não emagrece e o quadro colorido. Deliciar-me com as pequenas fantasias. Feitas as contas, delírios de honestidade podem transformar-se em pesadelos cruéis. Os pequenos enganos abrem as comportas dos pequenos sonhos e adoçam o dia-a-dia.

Walcyr Carrasco. O golpe do aniversariante. São Paulo, Ática, 1989



O texto “Delírios de honestidade” apresenta uma suposição que nos faz imaginar como seria o mundo se as pessoas fossem realmente honestas. Portanto, de acordo com o narrador/personagem do texto, o que é possível inferir sobre a honestidade das pessoas?

Alternativas da questão 2435873
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