Questão
ID 2429649Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Exemplificação
Ano: 2020 Banca: Instituto ACCESS - ACCESS Órgão: Câmara Municipal de Mangaratiba
Twitter, a praça do ódio
Deixei de frequentar o Twitter há alguns anos. Cheguei à
conclusão de que não tinha saúde emocional para ser linchada
num dia pela esquerda e no outro pela direita. Vocês veem
quanto tempo faz isso: naquela época, a palavra ainda era
5 linchamento, e não cancelamento, como se diz hoje.
“Linchamento” é, no entanto, o termo de longe mais
apropriado — mas quando se pratica o ódio do bem fica difícil
justificar a participação em algo tão claramente explicitado.
“Cancelamento” é uma versão descolada para uma palavra
10 pesada. Dizer que “cancelamos alguém” joga a desonra sobre o
cancelado; dizer “linchamos alguém” deixa a desonra onde ela
merece ficar.
Apanhar de um lado só é relativamente suportável, porque
o ser humano é um animal gregário que encontra a sua força
15 nos coletivos. É tolerável ser odiado por um grupo quando as
ideias que despertam esse ódio são ponto de comunhão com
os membros do outro grupo ao qual pertencemos. O nosso
grupo nos acolhe e nos dá proteção. Uivamos com os lobos,
eles uivam com a gente e somos felizes para sempre.
20 Isso explica a polarização.
Viver numa bolha, qualquer que ela seja, traz a sensação
de pertencimento a que todos almejamos. Por isso a política
descamba tão facilmente para o que parece, de fora, uma seita
religiosa; por isso, aliás, seitas religiosas. E clubes, e torcidas
25 organizadas. Pensar fora da bolha sempre foi desafiador, mas
no Twitter é um massacre. É quase impossível ler milhares de
insultos vindos de todos os lados e manter a autoestima.
Lamentavelmente, o Twitter é também a ágora onde a
política acontece, e num momento como o atual, jornalistas
30 precisam estar lá. Voltei a participar da rede há coisa de dois
meses, mas o sentimento preponderante que ela me passa
continua sendo o de depressão: o que mais vejo são denúncias
bizarras, ressentimento e lacração.
A ferocidade do ambiente faz com que qualquer pessoa
35 vagamente sensata meta a viola no saco e desista de se
manifestar sobre qualquer assunto relevante. Em outras
palavras, qualquer pessoa vagamente sensata passa a falar
sobre o tempo e a saúde, e ainda assim com ressalvas.
Felizmente há pessoas vagamente insensatas que não se
40 deixam intimidar, e isso salva a plataforma.
Minha amiga Mariliz Pereira Jorge, colunista da “Folha de
São Paulo”, é uma delas: apanha assustadora e
cotidianamente, mas levanta, sacode a poeira e volta para a
luta, toda coragem e honestidade intelectual. Gigante.
45 Essa semana saiu em defesa da nossa colega Vera
Magalhães, que tem dado novo fôlego ao “Roda Viva” mas
também é regularmente linchada porque ousa atacar ao
mesmo tempo PT e Bolsonaro, e resumiu a situação:
“@veramagalhães convida o prof Silvio Almeida para um
50 Roda Viva importantíssimo. É atacada por parte da esquerda
com comentários grosseiros, misóginos e covardes. Quem
comemora a bestialidade? A extrema-direita. Parabéns aos
envolvidos. Se abracem.”
No fim, é isso. O que ecoa na praça são os gritos dos
55 extremistas.
Não existe liberdade de expressão num lugar onde mesmo
jornalistas tarimbados têm medo de se expressar; não existe
liberdade de expressão quando qualquer assunto deixa de ser
tema para virar tabu, ou quando uma palavra ou uma opinião
60 mobilizam um exército de robôs para estraçalhar o indivíduo
que a proferiu.
O Twitter é a morte do debate, o fim da discordância
civilizada.
(Cora Rónai – O Globo 25/6/2020 – https://oglobo.globo.com/cultura/twitter-pracado-odio-24495997)
No terceiro parágrafo, a cronista Cora Rónai adota um procedimento coesivo que