Questão 2390854

Língua Portuguesa · 2014

Questão

ID 2390854

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Crônica

Ano: 2014 Banca: FADESP - Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa Órgão: Prefeitura Municipal de Nova Esperança do Piriá


As questões de 01 a 10 referem-se ao texto abaixo.

As três experiências

  1. Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou a minha vida. Nasci
  2. para amar os outros, nasci para criar meus filhos, e nasci para escrever. "O amar os outros"
  3. é tão vasto que inclui até o perdão para mim mesma com o que sobra. As três coisas são
  4. tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge.
  5. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única
  6. salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber
  7. amor em troca.
  8. E nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a
  9. infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era
  10. escrever. E não sei por que, foi esta que eu segui. Talvez porque para outras vocações eu
  11. precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria
  12. vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único
  13. estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu
  14. tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se
  15. fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me
  16. renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.
  17. Quanto aos meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus
  18. dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me
  19. orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes
  20. dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma
  21. descendência, e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão
  22. as asas para o voo necessário, e eu ficarei sozinha: É fatal, porque a gente não cria os filhos
  23. para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo
  24. o destino de todas as mulheres.
  25. Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que
  26. pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste
  27. mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma
  28. garantia.
  29. Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o
  30. mundo estivesse a minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera. [...]

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 101.



O trecho em que a autora não faz referências a nenhuma das experiências que mobilizam sua vida é

Alternativas da questão 2390854
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