Questão
ID 2390839Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Crônica
Ano: 2014 Banca: FADESP - Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa Órgão: Prefeitura Municipal de Nova Esperança do Piriá
As questões de 01 a 10 referem-se ao texto abaixo.
As três experiências
- Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou a minha vida. Nasci
- para amar os outros, nasci para criar meus filhos, e nasci para escrever. "O amar os outros"
- é tão vasto que inclui até o perdão para mim mesma com o que sobra. As três coisas são
- tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge.
- Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única
- salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber
- amor em troca.
- E nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a
- infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era
- escrever. E não sei por que, foi esta que eu segui. Talvez porque para outras vocações eu
- precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria
- vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único
- estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu
- tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se
- fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me
- renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.
- Quanto aos meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus
- dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me
- orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes
- dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma
- descendência, e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão
- as asas para o voo necessário, e eu ficarei sozinha: É fatal, porque a gente não cria os filhos
- para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo
- o destino de todas as mulheres.
- Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que
- pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste
- mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma
- garantia.
- Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o
- mundo estivesse a minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera. [...]
LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 101.
Na crônica “As três experiências”, Clarice Lispector manifesta