Questão
ID 2357701Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Possibilidades de Paralelismo
Ano: 2014 Banca: CEPS UFPA - Centro de Processos Seletivos da Universidade Federal do Pará Órgão: Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará
VELHO, EU?
- O título é apenas chamativo, não há nele pretensão ou jactância. Ocorre simplesmente que um amigo
- de geração, convidado a dar seu depoimento para um livro sobre a condição de idoso, comum a nós dois,
- provocou-me a fazer o mesmo. E reconheci que, ao completar setenta e três anos, o momento seria bem
- propício a uma reflexão sobre o tema.
- Se me sinto velho? Em muitos aspectos, não. É verdade que já não corro, e certos movimentos simples,
- como o sair do carro, em vagas de estacionamento apertadas, exigem um esforço de que não tenho memória
- do passado. Se dirigir por mais de duas horas, tenho as pernas emperradas ao final da viagem. Mas caminho,
- jogo vôlei e tênis de praia, e nado com alguma regularidade. Aprecio sobretudo as longas jornadas em contacto
- com a natureza, como o Caminho Inca, feito oito anos atrás, ou as trilhas do Parque Nacional Torres Del Paine,
- na Patagônia Chilena, ano passado.
- Às academias de musculação não me adaptei. Todas, ao gosto da garotada, mantêm um fundo musical
- atordoante, que a mim irrita, quando o desejo é relaxar. E tenho a convicção de que, para fazer flexões e ativar
- músculos, não são necessários equipamentos sofisticados.
- A memória às vezes falha, ou tarda, mas não a ponto de comprometer o trabalho ou a atividade
- intelectual. E tende-se a perder a exata dimensão do tempo: falamos de coisas que nos aconteceram há vinte,
- trinta anos, como se tivessem ocorrido recentemente. Sentimo-nos como se continuássemos sendo sempre os
- mesmos.
- Só o espelho, ou às vezes a reação estranha de um interlocutor, é que nos trazem de relance à
- realidade. Como observou um artista sombrio, o barbear diário nos faz acompanhar o trabalho da morte, no
- lento avanço das rugas e dos cabelos brancos.
- Essa revelação dos espelhos e dos circunstantes foi bem retratada, há cerca de um século, pelo poeta
- Marcello Gama, cuja feiura começava no próprio nome de batismo (Possidônio Machado), e que a formulou em
- belos versos alexandrinos:
- “Sou feio se não mente o juízo dos espelhos
- Nem é falsa a expressão do que olha para mim”
- Pois é. Contra o juízo dos espelhos nós, os velhos, só temos a opor o nosso próprio sentimento e
- algumas compensações: mais histórias para contar, o conforto das lembranças amenas, a sensação de que
- nada de dramático, insolúvel ou desconhecido pode mais nos surpreender. Já vimos tudo. E se a paisagem à
- frente se faz nebulosa, os caminhos percorridos mantêm-se banhados de luz. Para contrapor à labilidade do
- presente e à incerteza do futuro, temos as coisas findas, “muito mais que lindas”, que permanecem – na nossa
- memória.
- Quanto ao sexo, espero não surpreender os amigos e amigas ao afirmar que não me preocupa. É claro
- que a capacidade orgástica juvenil já vai distante. Mas considero o sexo uma servidão. Muito prazerosa, é bem
- verdade, mas sempre uma servidão, pois exige uma parceira, para ser praticado de forma plenamente
- gratificante. Portanto, quando me faltar, em futuro incerto e não perquirido, talvez me sinta até mais livre, para
- desfrutar de outros prazeres do corpo e do espírito.
- Só há mesmo uma pena irremediável na velhice: a solidão crescente com a perda dos amigos,
- parentes, companheiros de geração. Falando destes últimos, irmãos de pensamento e de sonhos, que se
- foram, os dedos das mãos já não são suficientes para contá-los. E as novas amizades não os substituem
- plenamente.
- Há quem veja nessas ausências uma prévia da solidão radical e definitiva da travessia na barca de
- Caronte, para a qual iríamos sendo preparados. Mas para um racionalista convicto como eu, e otimista por
- princípio filosófico, a morte é apenas o último ato da vida. A única maneira de bem viver é não lhe atribuir
- importância. Quem não gosta de descansar, quando a jornada o fatiga? E falamos aqui de um repouso
- perfeito, sono sem sonhos em que cessa o tempo, por não mais se ter a consciência dele. A ideia de uma alma
- imortal me parece tão absurda quanto a de um corpo imortal. E ainda mais: inquietadora.
- Só a vida é importante. E enquanto mantivermos a curiosidade em relação a ela e ao nosso mundo,
- viver será sempre agradável. De minha parte, tenho todo o interesse em acompanhar o espetáculo pelo
- máximo de tempo. Melhor ainda: tenho a pretensão – talvez ingênua, talvez romântica – de bem participar dele,
- contribuindo, mesmo em pequena escala, para que meus contemporâneos e descendentes vivam mais alegres
- e felizes.
- Velho, sim! E satisfeito! Nada a reclamar.
Clemente Rosas
www.revistasera.info. 19/09/2013
No enunciado “... o barbear diário nos faz acompanhar o trabalho da morte, no lento avanço das rugas e dos cabelos brancos.” (linhas 19 e 20), o autor se refere à