Questão
ID 2356570Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Casos Obrigatórios de Crase
Ano: 2019 Banca: FUNDATEC - Fundação Universidade Empresa de Tecnologia e Ciências Órgão: Prefeitura Municipal de Chuí
- Empresas do Vale do Silício se tornaram, recentemente, alvo de acusações que vão de
- atentados ____ privacidade e interferência em eleições até sonegação fiscal e práticas
- monopolistas. Em meio ___ essa moral por vezes torta, os fundadores das gigantes de tecnologia
- também vêm trabalhando para ditar os rumos da educação global.
- O New York Times publicou em 2018 uma série de reportagens sobre como as empresas
- do Vale "empurraram" disciplinas como programação e engenharia para as escolas dos EUA,
- utilizando para isso discursos conhecidos como "carreiras do futuro" e habilidades das quais não
- se pode escapar. "Atualize-se ou morra", dizem os gurus do Vale. Aprenda a programar ou fique
- para trás.
- Não os culpemos. O fetiche pela tecnologia não é uma invenção nem exclusividade do Vale
- do Silício. A Marcha para o Oeste – tanto a Americana quanto a Brasileira – têm em comum o
- mesmo apelo ___ modernidade, o mesmo determinismo tecnológico. A ideia de que a tecnologia
- – sobretudo a digital – é sinônimo inexorável de progresso é, no mínimo, simplista.
- Não há nada demais em aprender algo moderno, especialmente se puder abrir portas
- valiosas na vida. Mas há certas narrativas que não apenas carecem de discussões mais profundas
- mas também escondem visões nada generosas com escolas e educadores.
- Veja Steve Jobs, por exemplo. O lendário líder da Apple deixou claro mais de uma vez que
- se os professores da escola de seus filhos fossem realmente competentes, estariam trabalhando
- em uma de suas empresas, ganhando altos milhões. Jobs, aliás, referia-se a professores de meia idade
- como profissionais que perderam o brilho e não deveriam estar mais ensinando.
- Há inúmeros outros casos. A Alt.School, rede de escolas americana, prometia "capacitar
- os alunos para um futuro sem limites". Seu fundador e ex-executivo do Google, Max Ventilla,
- dizia querer "usar a tecnologia para reinventar a educação". Ano passado a Alt.School anunciou
- o fechamento de duas unidades, alegando – pasmem – que a empresa precisaria utilizar os
- professores não para dar aulas, mas para o desenvolvimento de novos produtos digitais. A
- empresa justificou a decisão alegando que as escolas eram, na realidade, laboratórios de testes
- para produtos de larga escala.
- Exemplos como esse vêm se tornando comuns. Na cultura da ruptura total – a tão falada
- "disruption", em inglês – na qual impera a ideia de "mova-se rápido e quebre coisas" (lema
- informal das empresas do Vale), o que menos se vê são parcerias reais com alunos e educadores.
- Sobram, porém, coisas quebradas: os próprios governos, pressionados pela ideia de "ficar para
- trás", muitas vezes, permitem que discursos simplistas se tornem política pública. As tensões do
- Vale do Silício com a educação, entretanto, vão muito além da falta de parcerias sólidas. Elas
- envolvem uma imagem distorcida tanto da realidade quanto de si mesmo.
- Certa vez ouvi de um mestrando em Ciência da Computação da Universidade de Stanford
- – localizada no coração do Vale – que, no futuro, os livros de História falariam daquela região
- como uma espécie de Atenas na Antiguidade Clássica, um lugar onde ideias fluem e novos
- paradigmas são criados para o mundo (Sócrates, perdoa-lhes; eles não sabem o que falam).
- Episódio semelhante ocorreu num bar em Palo Alto, também no Vale. Ao comentar sobre a
- violência no entorno das escolas do Rio, e o trauma vivido por alunos, um dos presentes teve um
- 'estalo' e sugeriu que um app solucionaria a questão. Uma visão no mínimo reducionista para
- problemas complexos da sociedade.
- Não faço aqui uma ode contra a tecnologia digital e o setor privado, nem uma defesa de
- que escolas se fechem ao mundo lá fora. É certo que a escola como instituição e a educação como
- disciplina precisam se modernizar. Há que se pensar apenas quem deve conduzir a mudança: se
- tecnogurus do Vale – com suas virtudes, mas também distorções – ou se educadores.
- É cedo para dizer se a maré vai mudar. Mas nem tão cedo para que educadores voltem a
- tomar as rédeas do que é e pode ser o tal futuro da educação.
(Fábio Campos – 23/08/2019 – Revista Época – Disponível em: época.globo.com – adaptação)
Considerando o emprego do acento indicativo de crase, assinale a alternativa que completa, correta e respectivamente, as lacunas das linhas 02, 03 e 12.