Questão 2352761

Língua Portuguesa · 2019

Questão

ID 2352761

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Crônica

Ano: 2019 Banca: METODO - Método Soluções Educacionais Órgão: Prefeitura Municipal de Planalto da Serra


Com base na crônica abaixo, responda as questões 01.02 e 03.

A mulher sem medo

Meter medo em uma mulher transformou-se

para ele em questão de honra.

Tinha de vê-la pálida, trêmula.

Cientistas americanos estudam o caso de uma mulher portadora de uma rara condição, em resultado da qual ela não tem medo de nada.

Folha.com, 17 de dezembro de 2010

Ele não sabia que o esperava quando, levado mais pela curiosidade do que pela paixão, começou a namorar a mulher sem medo. Na verdade, havia aí também um elemento interesseiro; tinha um projeto secreto, que era escrever um livro chamado “ A vida com a mulher que não tinha medo”, uma obra que, imaginava, poderia fazer enorme sucesso, trazendo-lhe fama e fortuna. Mas ele não tinha a menor ideia do que viria a acontecer.

Dominador, o homem queria ser o rei da casa. Suas ordens deveriam ser rigorosamente obedecidas pela mulher. Mas como impor sua vontade? Como muitos ele recorria a ameaças: quero o café servido às nove horas da manhã, senão... E aí vinham as advertências: se não eu grito com você, senão eu bato em você, senão eu deixo você sem comida.

Acontece que a mulher simplesmente não tomava conhecimento disso; ao contrário, ria às gargalhadas. Não temia gritos, não temia tapas, nem temia qualquer tipo de castigo. E até dizia, gentil: “Bem que eu queira ficar assustada com suas ameaças, como prova de consideração de afeto, mas você vê, não consigo”.

Aquilo, além de humilhá-lo profundamente, deixava-o completamente perturbado. Meter medo na mulher transformou-se para ele em questão de honra. Tinha de vê-la pálida, trêmula, gritando por socorro.

Como fazê-lo? Pensou muito a respeito e chegou a uma conclusão: para amedrontá-la só barata ou rato. Resolveu optar pela barata, por uma questão de facilidade: perto onde moravam havia um velho depósito abandonado, cheio de baratas. Foi até lá e conseguiu quatro exemplares, que guardou em um vidro de boca larga.

Voltou para casa e ficou esperando a mulher chegasse, quando então soltaria as baratas. Já antegozava a cena: ela sem dúvida subiria numa cadeira, gritando histericamente. E ele enfim sentiria o vencedor.

Foi neste momento que o rato apareceu. Coisa surpreendente, porque ali não havia ratos, sobretudo um roedor como aquele, ameaçador, o Rei dos Ratos. Quando a mulher finalmente retornou encontrou-o de pés sobre uma cadeira, agarrado ao vidro com as baratas, gritando histericamente.

Fazendo jus à fama ela não demonstrou o menor temor; ao contrário ria às gargalhadas. Foi buscar uma vassoura e caçou o rato pela sala, conseguiu encurralá-lo e liquidou-o sem maiores problemas. Feito que ajudou o homem, ainda trêmulo, a descer da cadeira. E aí viu que ele segurava o vidro com as quatro baratas. O que a deixou assombrada: o que pretendia ele fazer com os pobres insetos? Ou aquilo era um novo tipo de perversão?

Àquela altura ele já nem sabia o que dizer. Confessar que se tratava do derradeiro truque para assustá-la seria um vexame, mesmo porque, como ele agora o constava, ela não tinha medo de barata, assim como não tinha medo do rato. O jeito era aceitar a situação. E admitir que viver com uma mulher sem medo era uma coisa no mínimo amedrontadora.

SCLIAR, Moacyr. A mulher sem medo. Folha de S. Paulo, 17 jan. 2011.



A crônica apresenta alguns estereótipos sobre o comportamento do homem e da mulher. Que estereótipos são esses?

Alternativas da questão 2352761
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