Questão
ID 2352758Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Crônica
Ano: 2019 Banca: METODO - Método Soluções Educacionais Órgão: Prefeitura Municipal de Planalto da Serra
Com base na crônica abaixo, responda as questões 01.02 e 03.
A mulher sem medo
Meter medo em uma mulher transformou-se
para ele em questão de honra.
Tinha de vê-la pálida, trêmula.
Cientistas americanos estudam o caso de uma mulher portadora de uma rara condição, em resultado da qual ela não tem medo de nada.
Folha.com, 17 de dezembro de 2010
Ele não sabia que o esperava quando, levado mais pela curiosidade do que pela paixão, começou a namorar a mulher sem medo. Na verdade, havia aí também um elemento interesseiro; tinha um projeto secreto, que era escrever um livro chamado “ A vida com a mulher que não tinha medo”, uma obra que, imaginava, poderia fazer enorme sucesso, trazendo-lhe fama e fortuna. Mas ele não tinha a menor ideia do que viria a acontecer.
Dominador, o homem queria ser o rei da casa. Suas ordens deveriam ser rigorosamente obedecidas pela mulher. Mas como impor sua vontade? Como muitos ele recorria a ameaças: quero o café servido às nove horas da manhã, senão... E aí vinham as advertências: se não eu grito com você, senão eu bato em você, senão eu deixo você sem comida.
Acontece que a mulher simplesmente não tomava conhecimento disso; ao contrário, ria às gargalhadas. Não temia gritos, não temia tapas, nem temia qualquer tipo de castigo. E até dizia, gentil: “Bem que eu queira ficar assustada com suas ameaças, como prova de consideração de afeto, mas você vê, não consigo”.
Aquilo, além de humilhá-lo profundamente, deixava-o completamente perturbado. Meter medo na mulher transformou-se para ele em questão de honra. Tinha de vê-la pálida, trêmula, gritando por socorro.
Como fazê-lo? Pensou muito a respeito e chegou a uma conclusão: para amedrontá-la só barata ou rato. Resolveu optar pela barata, por uma questão de facilidade: perto onde moravam havia um velho depósito abandonado, cheio de baratas. Foi até lá e conseguiu quatro exemplares, que guardou em um vidro de boca larga.
Voltou para casa e ficou esperando a mulher chegasse, quando então soltaria as baratas. Já antegozava a cena: ela sem dúvida subiria numa cadeira, gritando histericamente. E ele enfim sentiria o vencedor.
Foi neste momento que o rato apareceu. Coisa surpreendente, porque ali não havia ratos, sobretudo um roedor como aquele, ameaçador, o Rei dos Ratos. Quando a mulher finalmente retornou encontrou-o de pés sobre uma cadeira, agarrado ao vidro com as baratas, gritando histericamente.
Fazendo jus à fama ela não demonstrou o menor temor; ao contrário ria às gargalhadas. Foi buscar uma vassoura e caçou o rato pela sala, conseguiu encurralá-lo e liquidou-o sem maiores problemas. Feito que ajudou o homem, ainda trêmulo, a descer da cadeira. E aí viu que ele segurava o vidro com as quatro baratas. O que a deixou assombrada: o que pretendia ele fazer com os pobres insetos? Ou aquilo era um novo tipo de perversão?
Àquela altura ele já nem sabia o que dizer. Confessar que se tratava do derradeiro truque para assustá-la seria um vexame, mesmo porque, como ele agora o constava, ela não tinha medo de barata, assim como não tinha medo do rato. O jeito era aceitar a situação. E admitir que viver com uma mulher sem medo era uma coisa no mínimo amedrontadora.
SCLIAR, Moacyr. A mulher sem medo. Folha de S. Paulo, 17 jan. 2011.
Sobre o que trata a crônica?