Questão 2351967

Língua Portuguesa · 2021

Questão

ID 2351967

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Inferência Textual

Ano: 2021 Banca: UERJ - Universidade Estadual do Rio de Janeiro Órgão: Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro


ABRIR-SE AO NOVO

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Imagino qual não teria sido a surpresa causada por um rinoceronte em plena Europa do século

XVI. O ganda foi dado de presente pelo Sultão de Cambaia ao Vice-Rei da Índia, que o repassou

ao Rei Dom Manuel I que, por sua vez, quis dá-lo de presente para o Papa Leão X. Durante a

festa da Santíssima Trindade de 1515, Dom Manuel organizou, em plena Lisboa, o combate entre

5 um de seus elefantes e o rinoceronte. O elefante, ao enxergar o rinoceronte, fugiu em desabalada

carreira, levando tudo e todos por diante. Resultado do combate: o ganda foi aclamado vencedor.

E de Lisboa se irradiou a narrativa que converteu o rinoceronte em patrono da boa blindagem e da

bravura dos militares.

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Após o espetáculo, o rinoceronte foi enviado ao Papa, mas a embarcação que o levava naufragou na

10 costa da Itália. Do pobre ganda só sobraram histórias. O pintor Albrecht Dürer, sem jamais ter visto

o rinoceronte, o desenhou em 1515, acrescentando detalhes insólitos como um chifre no dorso,

carapaças de crustáceo e escamas de réptil nas patas. Esta obra fixa a aparência de um rinoceronte

até fins do século XVIII.

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A admiração estética é com frequência provocada pelo ineditismo. A nomeação do desconhecido

15 opera para torná-lo assimilável a um entendimento que procura recobrar-se de uma comoção. Os

efeitos angustiantes do inusitado são tranquilizados por um nome. Entretanto, a ânsia de assimilação

do extraordinário ao rotineiro leva a tropeços classificatórios. Algo semelhante se passou no século

XIII com Marco Polo quando, em Java, ele se deparou com um rinoceronte e relatou então ter visto

um unicórnio, lamentando porém que ele fosse tão feio e agressivo, muito mais próximo de um

20 grande búfalo do que de um cavalo, com patas de elefante, pelagem de búfalo e cabeça de javali.

Na classificação e na nomeação de um ente, muitas vezes somos levados a distorcer seus atributos

constitutivos indispensáveis, exatamente aqueles que fazem de uma coisa ela mesma e não outra,

segundo o princípio aristotélico da identidade: A=A.

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Há uma espécie de resistência mental em se abrir uma nova rubrica no nosso esquema compreensivo

25 movido por estoques de analogias, assim como uma certa relutância em se perceber o inédito a partir

dele mesmo, da sua singularidade ou excepcionalidade. Ver, interpretar, descrever e nomear não

são atos mentais automáticos e dependentes de alguma verdade substancial, mas sim construções

conjecturais da precária relação entre o mundo e a linguagem.

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MARCUS FABIANO GONÇALVES

Adaptado de insightinteligencia.com.br.

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COM BASE NO TRECHO A SEGUIR, RESPONDA ÀS QUESTÕES 07, 08 E 09.

Ver, interpretar, descrever e nomear não são atos mentais automáticos e dependentes de alguma verdade substancial, mas sim construções conjecturais da precária relação entre o mundo e a linguagem. (l. 26-28)



Em construções conjecturais da precária relação entre o mundo e a linguagem, o autor destaca que a linguagem oferece uma representação do chamado mundo real, mas não se confunde com ele.

Um trecho do texto que exemplifica essa perspectiva é:

Alternativas da questão 2351967
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