Questão
ID 2278297Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Verbos de Ligação
Ano: 2024 Banca: FUNDATEC - Fundação Universidade Empresa de Tecnologia e Ciências Órgão: Prefeitura Municipal de Santo Augusto
Por trás das palavras
Por Cláudio Moreno
- Muita gente pensa que uma palavra só transmite aquilo que sobre ela está registrado no
- dicionário. Ledo engano. Os semanticistas modernos ensinam que aquilo que chamamos de
- significado de um vocábulo é divi__ível em duas parcelas: a primeira, mais óbvia, é a sua
- denotação, exatamente a parte de seu significado que se refere ao nosso mundo (concreto ou
- imaginário). No fundo, quando procuramos uma palavra no dicionário, a informação que vamos
- encontrar é basicamente o seu valor denotativo.
- Em alguns vocábulos, no entanto, o significado não se resume .... esse valor denotativo; a
- ele pode agregar-se a conotação, que é um valor adicional, uma sutileza semântica que a palavra
- carrega consigo. Essa segunda parcela, não tão óbvia (muitas vezes confundida com sentido
- figurado), engloba todas as outras informações que a palavra pode transmitir, o que inclui as
- avaliações subjetivas, as intenções depre__iativas, as diferenças regionais, de faixa etária, de
- classe social e muitas mais. Quem escreve “guampa” em vez de “chifre” está se referindo
- denotativamente ao mesmo objeto, mas está ao mesmo tempo informando que pertence a uma
- determina região do Brasil. É isso que explica, também, por que alguém resolve escrever na
- vitrine de sua loja a palavra “sale” em vez de “liquidação”, ou mesmo o brasileiríssimo “torra-
- torra”. Ao escolher “sale”, ele está dizendo algo além do sentido costumeiro de liquidação:
- primeiro, que é uma oferta para gente fina (ou que pensa que é), aquele grupo para o qual o
- uso desse vocábulo estrangeiro diminui a humilhação de se sentir atraído por uma rebaixa dos
- preços, como qualquer plebeu. Se escolher “torra-torra”, ao contrário, estará passando
- implicitamente a mensagem de que o consumidor mais modesto pode entrar na loja sem medo,
- pois vai encontrar preços à altura de seu bolso.
- É por isso que dizemos que só existem sinônimos parciais. Não posso trocar livremente uns
- pelos outros sem que haja, como consequência, a perda ou o acréscimo de uma nuança de
- sentido. Cada sinônimo carrega consigo outros conteúdos que vão ser captados pelo destinatário
- — e .... este contrabando chamamos de conotação. Entre dois sinônimos, um pode ser de uso
- mais geral do que o outro (velho x idoso); pode implicar aprovação ou censura moral, enquanto
- o outro é neutro (frugal x econômico); pode ser mais profissional do que o outro (óbito x morte);
- pode ser mais literário do que o outro (a__az x bastante); mais coloquial do que o outro (careca
- x calvo); pode marcar gerações diferentes (minha avó chamava o comercial de TV de “reclame”)
- — e assim por diante.
- É claro que essas pequenas (mas importantes) diferenças não estão nos dicionários. Como
- conchinhas do mar, elas não vêm em pacotes de ocasião ou conjuntos pré-fabricados: se
- mantivermos sempre acesa a nossa atenção, vamos encontrá-las aqui e ali nas praias de nossas
- leituras, formando uma coleção valiosíssima que nos permitirá reconhecê-las quando as
- reencontrarmos na pena de algum autor. Machado, por exemplo, era mestre na escolha do
- vocábulo certo. No seu conto Uns Braços, por exemplo, para caracterizar a boçalidade do
- solicitador Borges, descreve-o .... mesa, na hora do almoço: “Durante alguns minutos não se
- ouviu mais que o tinir dos talheres e o ruído da mastigação. Borges abarrotava-se de alface e
- vaca”... E precisa mais do que isso?
(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br – texto adaptado especialmente para esta prova).
Quanto à predicação, o verbo empregado na frase adaptada “Machado era mestre na escolha do vocábulo certo” é: