Questão
ID 2192167Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Sentidos do texto
Ano: 2019 Banca: UNILAB - Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira Órgão: Universidade da Integração Internacional
TEXTO
SUÍTE DA PRIMAVERA SUÍÇA
- Inverno de Berna em túmulo a se abrir – e eis o campo, eis mil ervas. Folhas novas, folhas, como
- vos separar do vento. Um espirro e depois outro, espirros da primavera, resfriada e atenta atrás da vidraça.
- Fios de aranha nos dedos, o poço revelado no jardim – mas que perfume de aço novo vem das miúdas
- flores amarelas e amarelinhas. Folhas, folhas, como vos separar da brisa.
- Onde me esconder nesta aberta claridade? Perdi meus cantos de meditação. Mas se ponho vestido
- branco e saio... na luz ficarei perdida – e de novo perdida – e no salto lento para o outro plano de novo
- perdida – e como encontrar nesta minha ausência a primavera? Rosa, passa a ferro o meu vestido mais
- negro. Nestes planos da calma sucessiva – e mais no outro – e mais no outro – serei o único eu possível,
- apenas móvel num século e no outro século e no outro século desta limpidez silenciosa, oh inóspita
- primavera. Ou talvez corra por esta nova época – atravessando esse novo mundo sem caminhos – com mil
- espirros brilhantes e mil ervas. Pararei ofegante só onde me bater o coração, único marco no teu vazio,
- primavera: eu de preto e tu de ouro, eu com uma flor no cabelo, tu com mil flores nos cabelos e assim nos
- reconheceremos. Ainda para nos reconhecermos, segurarei um livro na mão e na outra tanta hesitação, sou
- alta e resfriada: me reconhecerás pelo lenço e pelos espirros. E no meio deste odioso céu vazio, que respiro, que
- respiro – te reconhecerei pelo teu cego vento e pela minha orgulhosa floração de espirros.
- Nesta dormente primavera, no campo o sonho das cabras. No terraço do hotel o peixe no aquário. E
- nas colinas o fauno solitário. Dias, dias, dias e depois – no campo o vento, o sonho impudente das cabras,
- o peixe oco no aquário – tua súbita tendência primaveril ao roubo, e o fauno já corado em saltos solitários.
- Sim, mas até que venha o verão e amadureçam para o outono cem mil maçãs.
- Como a fruta e jogo fora a metade, nunca tive piedade na primavera. Bebo água direto na fonte da
- rua, não enxugo a boca com o lenço, perdi o lenço e perdi o inverno, nada lamento, nunca tive piedade na
- primavera. De algum modo olho pelo buraco da fechadura e vou visitar-te na hora sagrada de teu sono,
- nunca tive piedade na primavera. Quanto à piscina, fico horas na piscina, estremecendo aos últimos frios
- do inverno estremecendo aos primeiros frios das folhas. Olha só a piscina! Olho, áspera. Nunca tive
- piedade na primavera.
- A insônia levita a cidade mal-iluminada, não há porta fechada nem janela sem luz. Que esperam?
- Esperam. Os cinemas já quentes estão vazios. Em torno das lâmpadas das ruas a germinação. A última
- neve há tanto tempo se derreteu. A margem do rio, a invasão dos casais sentados junto a mesas, algumas
- crianças sonolentas no colo, outras adormecidas na dureza da calçada. As conversas são cansadas. O pior
- é essa leveza desperta, as lanternas das ruas de Berna zumbindo de pernilongos. Ah, como, mas como
- andamos. Poeira nas sandálias, nenhum destino.
- Não, não está ficando bom. Ah, eis enfim a Catedral, o abrigo, a escuridão.
- Mas a Catedral está quente e aberta.
- Cheia de mosquitos.
Lispector, Clarice. Todas as Crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 2018. ISBN 978-85-8122-749-8 (recurso eletrônico).
Assinale a alternativa em que todas as expressões indicam "monotonia" e/ou "tédio":