Questão
ID 2191905Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Crônica
Ano: 2019 Banca: UNILAB - Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira Órgão: Universidade da Integração Internacional
Pegando o Ita. De volta.
- Há 20 anos, Railídia desembarcou em São Paulo. Trazia no seu matolão carimbós, lundus,
- merengues, lambadas, sambas, frevos, guitarradas, bois, batuques, roques. Cheiros e cores. Bailes e bolas,
- rios e ruas. Jambu, tucupi e camarão. (Além da cuinha, é claro.) Aqui neste caldeirão cinzento e espigado
- da grande bruxaria nacional, misturou com pitadas de concreto armado, botequins, fumaça de óleo diesel,
- quintais, comilanças, dores, amigos e saudades. Tudo isso encantado pela força dos ofós que bem aprendeu
- formou a Cangalha (independente, 2017) que conosco compartilha em forma de um lindo disco, desde o
- começo do ano.
- Agora, essa papa-chibé nascida no Rio Mar e criada na beira do Xingu, Orixás imensos que a
- seguram – bem como o Brasil, a despeito de tanta ingratidão –, finalmente está pegando o Ita. De volta. A
- Railídia, a nossa Rai de tantas rodas, botequins e quintais, está indo pro Pará com toda a trupe fazer o
- lançamento do seu imperdível Cangalha diante dos seus mais velhos; junto ao solo sagrado para onde
- retornaram seus Ancestrais. Momento único na vida de uma artista, a volta à Terra. Momento de abrir de
- novo o matolão diante dos que a despediram, diante dos que em si depositaram tantos afetos, tantos
- temores, tanta esperança, e dizer: “Olha só, está aqui… Foi feito”.
- Só que na vida do artista popular qualquer gato é suçuarana agarrada na unha e quebrada no dente.
- Então, claro que não tem financiamento nem incentivo, nem patrocínio. O dinheiro oficial tem sempre
- preocupações mais urgentes, desde o sempre que somos governados pela fina-flor de nossa própria
- decrepitude. Mas no Brasil que se mantém rés ao chão, recendendo ao pó que argila waldemares e
- vanzolinis, elomares e das neves, resta o apoio. É esse apoio que está sendo pedido e esperado neste sábado,
- no Ó do Borogodó*, quando as cantorias e batuques levantarão os recursos espirituais e materiais pra
- conduzir essa excursão de sons e sonhos pelas brenhas onde tudo começou.
- Estarei lá, é claro. Porque não me envergonho de lutar com as poucas armas de que ainda dispomos
- na desesperada batalha pelos haustos da sobrevivência de um povo. De um sonho. E até porque tem
- colheita minha embarcada nesse Gaiola – e aprendi que o que se colhe, se deve. Até porque, sendo daqui,
- tornei-me também de lá por força dos encantamentos todos que me foram dados viver. Até porque, como
- dizem os versos sotero-paulistanos que ela nunca deixou de cantar: “Se há muita cidade pra viver | se há
- muito País pra se morar | só há um lugar no mundo pra nascer” (Tabaréu, canção de Celso Viáfora e
- Vivente Barreto).
- *Ó do Borogodó – Rua Horácio Lane, 21 – Pinheiros. Sábado, 2/9/2017, 16h. Entrada: R\$ 20,00.
(texto adaptado)
Postado por Fernando Szegeri em 29/ago/2017
http://www.ultrajano.com.br/pegando-o-ita-de-volta/
A expressão "matolão" (linhas 01 e 13) significa metaforicamente no ambiente do texto: