Questão 2191900

Língua Portuguesa · 2019

Questão

ID 2191900

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Artigo de Jornal

Ano: 2019 Banca: UNILAB - Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira Órgão: Universidade da Integração Internacional


Pegando o Ita. De volta.

  1. Há 20 anos, Railídia desembarcou em São Paulo. Trazia no seu matolão carimbós, lundus,
  2. merengues, lambadas, sambas, frevos, guitarradas, bois, batuques, roques. Cheiros e cores. Bailes e bolas,
  3. rios e ruas. Jambu, tucupi e camarão. (Além da cuinha, é claro.) Aqui neste caldeirão cinzento e espigado
  4. da grande bruxaria nacional, misturou com pitadas de concreto armado, botequins, fumaça de óleo diesel,
  5. quintais, comilanças, dores, amigos e saudades. Tudo isso encantado pela força dos ofós que bem aprendeu
  6. formou a Cangalha (independente, 2017) que conosco compartilha em forma de um lindo disco, desde o
  7. começo do ano.
  8. Agora, essa papa-chibé nascida no Rio Mar e criada na beira do Xingu, Orixás imensos que a
  9. seguram – bem como o Brasil, a despeito de tanta ingratidão –, finalmente está pegando o Ita. De volta. A
  10. Railídia, a nossa Rai de tantas rodas, botequins e quintais, está indo pro Pará com toda a trupe fazer o
  11. lançamento do seu imperdível Cangalha diante dos seus mais velhos; junto ao solo sagrado para onde
  12. retornaram seus Ancestrais. Momento único na vida de uma artista, a volta à Terra. Momento de abrir de
  13. novo o matolão diante dos que a despediram, diante dos que em si depositaram tantos afetos, tantos
  14. temores, tanta esperança, e dizer: “Olha só, está aqui… Foi feito”.
  15. Só que na vida do artista popular qualquer gato é suçuarana agarrada na unha e quebrada no dente.
  16. Então, claro que não tem financiamento nem incentivo, nem patrocínio. O dinheiro oficial tem sempre
  17. preocupações mais urgentes, desde o sempre que somos governados pela fina-flor de nossa própria
  18. decrepitude. Mas no Brasil que se mantém rés ao chão, recendendo ao pó que argila waldemares e
  19. vanzolinis, elomares e das neves, resta o apoio. É esse apoio que está sendo pedido e esperado neste sábado,
  20. no Ó do Borogodó*, quando as cantorias e batuques levantarão os recursos espirituais e materiais pra
  21. conduzir essa excursão de sons e sonhos pelas brenhas onde tudo começou.
  22. Estarei lá, é claro. Porque não me envergonho de lutar com as poucas armas de que ainda dispomos
  23. na desesperada batalha pelos haustos da sobrevivência de um povo. De um sonho. E até porque tem
  24. colheita minha embarcada nesse Gaiola – e aprendi que o que se colhe, se deve. Até porque, sendo daqui,
  25. tornei-me também de lá por força dos encantamentos todos que me foram dados viver. Até porque, como
  26. dizem os versos sotero-paulistanos que ela nunca deixou de cantar: “Se há muita cidade pra viver | se há
  27. muito País pra se morar | só há um lugar no mundo pra nascer” (Tabaréu, canção de Celso Viáfora e
  28. Vivente Barreto).

  29. *Ó do Borogodó – Rua Horácio Lane, 21 – Pinheiros. Sábado, 2/9/2017, 16h. Entrada: R\$ 20,00.

(texto adaptado)

Postado por Fernando Szegeri em 29/ago/2017

http://www.ultrajano.com.br/pegando-o-ita-de-volta/



O primeiro parágrafo do texto constitui:

Alternativas da questão 2191900
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