Questão
ID 218251Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Classes Morfológicas da Palavra "Que"
Ano: 2026 Banca: FCPC - Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura Órgão: Universidade Federal do Ceará
- \(\quad \quad\) Era uma festa. Comemorávamos a vinda de um bebê que ainda morava na barriga da mãe.
- Eu havia acabado de segurá-la para que ela passasse a pequena mão na água da fonte do jardim.
- Ela tentava colocar o dedo gorducho no buraco para que a água se espalhasse, como tinha visto
- uma criança mais velha fazer. Parecia encantada com a possibilidade de controlar a água. Tem 1
- ano e oito meses, cabelos cacheados que lhe dão uma aparência de anjo barroco e uns olhos
- arregalados. Com olheiras, Catarina é um bebê com olheiras, embora durma bem e muito. De
- repente, ela enrijeceu o corpo e deu um grito: “A menina…. A menina…. Quebrou”.
- \(\quad \quad\) Era um grito de horror. O primeiro que eu ouvia dela. Animação, manha, dor física, tudo
- isso eu já tinha ouvido de sua boca bonita. Aquele era um grito diferente. Não parecia um tom que
- se pudesse esperar de alguém que ainda precisava se esforçar para falar frases completas. Catarina
- estava aterrorizada. “A menina… A menina…” Ela continuava repetindo. Olhei para os lados e
- demorei um pouco a enxergar o que ela tinha visto em meio a tanta gente. Uma garota, de uns 10,
- 12 anos, talvez, com uma perna engessada. “Quebrou…” Catarina repetia. “A menina… quebrou.”
- \(\quad \quad\) Ela não olhava para mim, como costuma fazer quando espera que eu esclareça alguma
- novidade do mundo. Era mais uma denúncia. Pelo resto da festa, ela gritou a mesma frase, no
- mesmo tom aterrorizado, sempre que a menina quebrada passava por perto. Nos aproximamos da
- garota, para que Catarina pudesse ver que ela parecia bem, e que os amigos se divertiam
- escrevendo e desenhando coisas no gesso, mas nada parecia diminuir o seu horror. Os adultos
- próximos tentaram explicar a ela que era algo passageiro. Mas ela não acreditava. Naquele sábado
- de janeiro Catarina descobriu que as pessoas quebravam.
- \(\quad \quad\) Eu a peguei, olhei bem para ela, olho no olho, e tentei usar minha suposta credibilidade de
- madrinha: “A menina caiu, a perna quebrou, agora a perna está colando, e depois ela vai voltar a
- ser como antes”. Catarina me olhou com os olhos escancarados, e eu tive a certeza de que ela não
- acreditava. Ficamos nos encarando, em silêncio, e ela deve ter visto um pouco de vergonha no
- assoalho dos meus olhos. Era a primeira vez que eu mentia pra ela. E dali em diante, ela talvez
- intuísse, as mentiras não cessariam. Naquela noite, depois da festa, fui dormir envergonhada.
- \(\quad \quad\) O que eu poderia dizer a você, Catarina? A verdade? A verdade você já sabia, você tinha
- acabado de descobrir. As pessoas quebram. Até as meninas quebram. E, se as meninas quebram,
- você também pode quebrar. E vai, Catarina. Vai quebrar. Talvez não a perna, mas outras partes de
- você. Membros invisíveis podem fraturar em tantos pedaços quanto uma perna ou um braço. E
- doer muito mais. E doem mais quando são outros que quebram você, às vezes pelas suas costas,
- em outras fazendo um afago, em geral contando mentiras ou inventando verdades. Gente cheia de
- medo, Catarina, que tem tanto pavor de quebrar, que quebram outros para manter a ilusão de que
- são indestrutíveis e podem controlar o curso da vida. E dão nomes mais palatáveis para a inveja e
- para o ódio que os queima. Mas à noite, Catarina, à noite, eles sabem.
- \(\quad \quad\) E, Catarina, você tem toda a razão de duvidar. Depois de quebrar, nunca mais voltamos a
- ser como antes. Haverá sempre uma marca que será tão você quanto o tanto de você que ainda não
- quebrou. Viver, Catarina, é rearranjar nossos cacos e dar sentido aos nossos pedaços, os novos e os
- velhos, já que não existe a possibilidade de colar o que foi quebrado e continuar como era antes. E
- isso é mais difícil do que aprender a andar e a falar. Isso é mais difícil do que qualquer uma das
- grandes aventuras contadas em livros e filmes. Isso é mais difícil do que qualquer outra coisa que
- você fará. (...)
Adaptado de: BRUM, Eliane. A menina quebrada. Revista Época. 28/01/2013. Disponível em <http://elianebrum.com/opiniao/colunas-na-epoca/a-menina-quebrada/>. Acesso em 18 jan. 2026.
Assinale a alternativa em que o vocábulo que classifica-se do mesmo modo que no trecho:
“Comemorávamos a vinda de um bebê que ainda morava na barriga da mãe.” (linha 01).