Questão
ID 2170817Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Dialogismo
Ano: 2018 Banca: FADESP - Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa Órgão: Instituto Federal do Pará
Leia atentamente o texto a seguir para responder às questões de 16 a 22.
- A dualidade fundamental da linguagem que nasce da oposição saussureana língua/fala
- foi (...) duramente contestada pelo soviético Bakhtin, já no final da década de 20. A oposição
- que Bakhtin (1929) faz a Saussure é radical, se levarmos em conta que a linguagem, para esse
- filósofo, não se divide em duas instâncias, língua e fala, ou língua e discurso, ou ainda
- competência e performance. A enunciação, “a verdadeira substância da língua”, é, para Bakhtin,
- a síntese do processo da linguagem, o conceito-chave para se entender os processos
- linguísticos.
- Assim como Saussure, Bakhtin parte do princípio de que a língua é um fato social cuja
- existência funda-se nas necessidades de comunicação. No entanto, afasta-se de Saussure ao
- ver a língua como algo concreto, fruto da manifestação interindividual entre os falantes,
- valorizando, assim, a manifestação concreta da língua e não o sistema abstrato de formas. Essa
- manifestação não é a fala de Saussure, porque é eminentemente social.
- Para Bakhtin, o que de fato existe é o processo linguístico, sendo a enunciação o motor
- da língua: “a língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no
- sistema linguístico abstrato das formas da língua nem no psiquismo individual dos falantes”. A
- língua constitui um processo de evolução ininterrupto, ou seja, um processo de criação contínua
- que se realiza pela interação verbal social dos locutores. Em outras palavras, a língua é uma
- atividade, um processo criativo, que se materializa pelas enunciações. A realidade essencial da
- linguagem é seu caráter dialógico.
- Sendo a realidade essencial da linguagem seu caráter dialógico, a categoria básica da
- concepção de linguagem em Bakhtin é a interação. Toda enunciação é um diálogo; faz parte de
- um processo de comunicação ininterrupto. Não há enunciado isolado; todo enunciado
- pressupõe aqueles que o antecederam e todos os que o sucederão. Um enunciado é apenas
- um elo de uma cadeia. Toda palavra, nesse sentido, já é uma contrapalavra, uma resposta.
- O dialogismo, que é, para Bakhtin, a condição de existência do discurso, é duplo: ao
- mesmo tempo que é lei do discurso constituir-se sempre de “já ditos” de outros discursos (as
- palavras são sempre, inevitavelmente, “palavras de outrem”), o discurso não existe
- independentemente daquele a quem é endereçado, o que implica que a visão do destinatário é
- incorporada e determinante no processo de produção do discurso.
- O conceito de interação é constitutivo dos sujeitos e da própria linguagem. A palavra é
- ideológica, ou seja, a enunciação é ideológica. É no fluxo da interação verbal que a palavra se
- concretiza como signo ideológico, que se transforma e ganha diferentes significados, de acordo
- com o contexto em que ela surge. Cada época e cada grupo social têm seu repertório de formas
- de discurso que funciona como um espelho que reflete e retrata o cotidiano. A palavra é a
- revelação de um espaço no qual os valores fundamentais de uma dada sociedade se explicitam
- e se confrontam.
- Os estudos de Bakhtin no ocidente, principalmente a partir da década de 70, vão
- influenciar as pesquisas atuais voltadas para a problemática da enunciação. Com base nessas
- pesquisas, não é mais possível dizer que a enunciação é um ato individual de utilização da
- língua por um locutor. Ela é eminentemente social.
CARDOSO, Sílvia. Discurso e ensino. Belo Horizonte, Autêntica, 2003. p. 24-25.
Do trecho O dialogismo, que é, para Bakhtin, a condição de existência do discurso, é duplo: ao mesmo tempo que é lei do discurso constituir-se sempre de “já ditos” de outros discursos (as palavras são sempre, inevitavelmente, “palavras de outrem”), o discurso não existe independentemente daquele a quem é endereçado, o que implica que a visão do destinatário é incorporada e determinante no processo de produção do discurso. (linhas 25 a 29), é possível compreender que