Questão 2170809

Língua Portuguesa · 2018

Questão

ID 2170809

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Dialogismo

Ano: 2018 Banca: FADESP - Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa Órgão: Instituto Federal do Pará


Leia atentamente o texto a seguir para responder às questões de 16 a 22.

  1. A dualidade fundamental da linguagem que nasce da oposição saussureana língua/fala
  2. foi (...) duramente contestada pelo soviético Bakhtin, já no final da década de 20. A oposição
  3. que Bakhtin (1929) faz a Saussure é radical, se levarmos em conta que a linguagem, para esse
  4. filósofo, não se divide em duas instâncias, língua e fala, ou língua e discurso, ou ainda
  5. competência e performance. A enunciação, “a verdadeira substância da língua”, é, para Bakhtin,
  6. a síntese do processo da linguagem, o conceito-chave para se entender os processos
  7. linguísticos.
  8. Assim como Saussure, Bakhtin parte do princípio de que a língua é um fato social cuja
  9. existência funda-se nas necessidades de comunicação. No entanto, afasta-se de Saussure ao
  10. ver a língua como algo concreto, fruto da manifestação interindividual entre os falantes,
  11. valorizando, assim, a manifestação concreta da língua e não o sistema abstrato de formas. Essa
  12. manifestação não é a fala de Saussure, porque é eminentemente social.
  13. Para Bakhtin, o que de fato existe é o processo linguístico, sendo a enunciação o motor
  14. da língua: “a língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no
  15. sistema linguístico abstrato das formas da língua nem no psiquismo individual dos falantes”. A
  16. língua constitui um processo de evolução ininterrupto, ou seja, um processo de criação contínua
  17. que se realiza pela interação verbal social dos locutores. Em outras palavras, a língua é uma
  18. atividade, um processo criativo, que se materializa pelas enunciações. A realidade essencial da
  19. linguagem é seu caráter dialógico.
  20. Sendo a realidade essencial da linguagem seu caráter dialógico, a categoria básica da
  21. concepção de linguagem em Bakhtin é a interação. Toda enunciação é um diálogo; faz parte de
  22. um processo de comunicação ininterrupto. Não há enunciado isolado; todo enunciado
  23. pressupõe aqueles que o antecederam e todos os que o sucederão. Um enunciado é apenas
  24. um elo de uma cadeia. Toda palavra, nesse sentido, já é uma contrapalavra, uma resposta.
  25. O dialogismo, que é, para Bakhtin, a condição de existência do discurso, é duplo: ao
  26. mesmo tempo que é lei do discurso constituir-se sempre de “já ditos” de outros discursos (as
  27. palavras são sempre, inevitavelmente, “palavras de outrem”), o discurso não existe
  28. independentemente daquele a quem é endereçado, o que implica que a visão do destinatário é
  29. incorporada e determinante no processo de produção do discurso.
  30. O conceito de interação é constitutivo dos sujeitos e da própria linguagem. A palavra é
  31. ideológica, ou seja, a enunciação é ideológica. É no fluxo da interação verbal que a palavra se
  32. concretiza como signo ideológico, que se transforma e ganha diferentes significados, de acordo
  33. com o contexto em que ela surge. Cada época e cada grupo social têm seu repertório de formas
  34. de discurso que funciona como um espelho que reflete e retrata o cotidiano. A palavra é a
  35. revelação de um espaço no qual os valores fundamentais de uma dada sociedade se explicitam
  36. e se confrontam.
  37. Os estudos de Bakhtin no ocidente, principalmente a partir da década de 70, vão
  38. influenciar as pesquisas atuais voltadas para a problemática da enunciação. Com base nessas
  39. pesquisas, não é mais possível dizer que a enunciação é um ato individual de utilização da
  40. língua por um locutor. Ela é eminentemente social.

CARDOSO, Sílvia. Discurso e ensino. Belo Horizonte, Autêntica, 2003. p. 24-25.



De acordo com o texto, a oposição de Bakhtin às ideias de Saussure baseia-se

Alternativas da questão 2170809
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