Questão
ID 2165600Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Possibilidades de Paralelismo
Ano: 2017 Banca: IFSULDEMINAS - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais Órgão: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais
TEXTO 1
CRÔNICA | Sobre trabalho e valor
01 Não faz muito tempo, fui ao velório da mãe de duas amigas que, apesar do longo tempo que não as via,
02 eram muito próximas. De maneira quase paradoxal, nunca havia visto a sua mãe, nem mesmo um aceno,
03 sequer tinha visto alguma foto sua. Mas fui lá, dar um abraço e me restringir ao mínimo de palavras. O velório é
04 o primeiro passo de um doloroso e, às vezes, longo processo de cicatrização da perda de um ente querido. Os
05 rituais de velório, cremação ou enterro têm por objetivo encher de significado o momento mais temido de
06 nossas vidas. Quando perdemos alguém – ou mesmo algo – a vida parece perder o sentido. Entretanto, a
07 verdade é o oposto disso: a morte dá significado às nossas vidas miseráveis.
08 Seria melhor dizer que a consciência da morte move a nossa existência vazia de sentido. Somos
09 atirados ao mundo, nos alimentamos e crescemos até o ponto em que nos damos conta de que havia mundo
10 antes de estarmos nele e que, um dia, o deixaremos. É normal termos medo, horror, pânico do dia de nossa
11 passagem. Mas medo de quê, cara-pálida? Há mais de dois mil anos, Epicuro nos ensinou que não devemos
12 temer a morte, afinal, ―quando estou, ela não está; quando ela está, eu já não sou‖. Se é sensato não temer a
13 morte, por que a tememos? Porque somos insensatos, óbvio. Há, porém, algo além de nossa insensatez, há um
14 medo que tem sentido lógico, racional: tememos que a nossa existência não tenha significado algum.
15 De alguma maneira, queremos superar a morte, certa. As religiões argumentam, cada uma à sua
16 maneira, que este mundo é ilusório e que, na verdade, somos eternos – para o bem e para o mal. A medicina
17 busca frenética e ilusoriamente o elixir da vida eterna. Ninguém, porém, tem provas consistentes da eternidade
18 de nossas almas, nem da existência de Matusalém. A única coisa que temos certeza que ultrapassa a vida
19 humana são as obras. Não é por nada que a arte tem um poder tão grande, sendo, inclusive, um caminho para
20 a cura psicanalítica. Nos últimos tempos, infelizmente, as obras realmente valorizadas – ao menos em vida –
21 nos dando a ilusão de ser uma porta para a eternidade são os frutos de nosso trabalho. E trabalhar para que o
22 nosso nome não se esgote com a nossa existência é muito trabalhoso.
23 Aliás, nós, que fomos criados e estamos imersos numa cultura latina, temos grande dificuldade em lidar
24 com o trabalho. Não é para menos, a origem da maldita palavra vem de um instrumento de tortura
25 medieval trippalium, formado por três pontas e do qual – graças aos deuses e à falta de museólogos – já não se
26 tem desenho nem amostra. Todos os latinos vemos o trabalho de forma negativa: trabajo, travail. Mesmo lavoro,
27 em italiano, vem do latim labor, que quer dizer, literalmente, fadiga. Talvez isso ajude a explicar o nosso enorme
28 apreço pelo ócio improdutivo.
29 Os nórdicos, campeões deste mundo trabalhoso – e da Copa 2014 –, usam work, wörk, etc., cuja origem
30 é woelk (feito, pronto). Certamente uma origem muito mais positiva que tortura ou fadiga. Mas hoje, somos
31 obrigados a trabalhar – desculpem a redundância – com sacrifício. Grande sacrifício e o resultado do sacrifício é
32 medido pelo cansaço que carregamos nos nossos corpos e espíritos. Se trabalho é sacrifício, para provar que
33 trabalhamos, temos de reclamar constantemente de nosso cansaço. E há categorias de atividades que
34 simplesmente ficam de fora: música, por exemplo. Músicos, escritores, pintores e outros vagabundos,
35 sabidamente, não trabalham. Não importa o quão pouco durmam e o quanto produzam – parece não haver
36 sacrifício nas suas criações.
37 Atividades intelectuais, decididamente, não são trabalho sob esse ponto de vista. Publicitários,
38 marqueteiros e jornalistas, por exemplo, não trabalham. Daqueles que têm esse tipo de atividade, só se salvam
39 os homens de negócios. Mas para isso, têm de declarar no próprio nome que negam o seu ócio – homens que
40 negam o ócio. Eles são os mais hábeis em transformar o seu ócio em dinheiro – e, por óbvio, têm dificuldade de
41 fazer o contrário – quando fazem, tendem a fazê-lo de alguma maneira brega e ridícula. Tudo bem, isso não
42 vem ao caso. O que interessa é que hoje acreditamos que vale a pena gastar a nossa saúde e encurtar as
43 nossas vidas por conta do trabalho e temos a mais absoluta certeza de que isso vai nos garantir a eternidade.
44 Mas não, isso não é verdade. Só a produção original tem alguma chance de ultrapassar a nossa
45 existência mundana. Estamos aqui para produzir a beleza e a grandeza, não para reproduzir a mediocridade e a
46 baixeza. Se conseguirmos fazer do nosso ofício, arte, talvez possamos trabalhar sem sofrimento e transformar
47 todas nossas atividades em frutos do mais belo de nossa existência.
48 Ouçamos Nieztsche: "Temos a arte para não morrer da verdade."
Disponível em: http://asboascoisasdavida.com.br/sobre-trabalho-e-valor/#sthash.Zx0WRI5E.dpbs Acesso em: 30/11/2017.
TEXTO 2
TRABALHO
Tibério Azul
01 Eu acordo de manhã
02 Levanto com o sol
03 Ele é muito pontual
04 Igual minha mulher
05 Há quem só trabalhe para ter salário
06 Eu, porém, trabalho também por amor
07 E feito o sol faço calor
08 Quentinho eu sou
09 Eu acordo compro o pão
10 E melo o pão no mel
11 É comum eu me lembrar
12 Que o padeiro faz o pão
13 Lá em Nova Iorque, Londres ou Istambul
14 Aqui no Recife, Angola ou Pequim
15 A minha razão sei lá porque
16 É tu
17 Que bom
18 É tu bombom
19 Vocês são sonho de valsa
20 E nós serenata de amor
Disponível em: https://www.letras.mus.br/tiberio-azul/2001973/ Acesso em: 30/11/2017
Releia os Textos 1 e 2 e observe as frases a seguir, retiradas de ambos os textos e marque V para as frases verdadeiras e F para as frases falsas:
( ) A palavra destacada em "E feito o sol faço calor" (Texto 2 / linha 7) pertence à mesma classe de palavras que a palavra destacada em: "Não faz muito tempo" (Texto 1 / linha 1).
( ) A palavra destacada em "Eu acordo compro o pão" (Texto 2 / linha 9) pertence à mesma classe de palavras que a palavra destacada em: "e que, um dia, o deixaremos." (Texto 1 / linha 10).
( ) A palavra destacada em "Quentinho eu sou" (Texto 2 / linha 8) pertence à mesma classe de palavras que a palavra destacada em: "Porque somos insensatos, óbvio." (Texto 3 / linha 13).
( ) A palavra destacada em "Eu, porém, trabalho também por amor" (Texto 2 / linha 6) pertence à mesma classe de palavras que a palavra destacada em: "temos grande dificuldade em lidar com o trabalho." (Texto 1 / linhas 23 e 24).
Assinale a alternativa CORRETA: