Questão 2165578

Língua Portuguesa · 2017

Questão

ID 2165578

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Análise Vocabular

Ano: 2017 Banca: IFSULDEMINAS - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais Órgão: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais


INSTRUÇÕES: Leia o texto 1 para responder às questões 21 a 27.

TEXTO 1

CRÔNICA | Sobre trabalho e valor

01 Não faz muito tempo, fui ao velório da mãe de duas amigas que, apesar do longo tempo que não as via,

02 eram muito próximas. De maneira quase paradoxal, nunca havia visto a sua mãe, nem mesmo um aceno,

03 sequer tinha visto alguma foto sua. Mas fui lá, dar um abraço e me restringir ao mínimo de palavras. O velório é

04 o primeiro passo de um doloroso e, às vezes, longo processo de cicatrização da perda de um ente querido. Os

05 rituais de velório, cremação ou enterro têm por objetivo encher de significado o momento mais temido de

06 nossas vidas. Quando perdemos alguém – ou mesmo algo – a vida parece perder o sentido. Entretanto, a

07 verdade é o oposto disso: a morte dá significado às nossas vidas miseráveis.

08 Seria melhor dizer que a consciência da morte move a nossa existência vazia de sentido. Somos

09 atirados ao mundo, nos alimentamos e crescemos até o ponto em que nos damos conta de que havia mundo

10 antes de estarmos nele e que, um dia, o deixaremos. É normal termos medo, horror, pânico do dia de nossa

11 passagem. Mas medo de quê, cara-pálida? Há mais de dois mil anos, Epicuro nos ensinou que não devemos

12 temer a morte, afinal, ―quando estou, ela não está; quando ela está, eu já não sou‖. Se é sensato não temer a

13 morte, por que a tememos? Porque somos insensatos, óbvio. Há, porém, algo além de nossa insensatez, há um

14 medo que tem sentido lógico, racional: tememos que a nossa existência não tenha significado algum.

15 De alguma maneira, queremos superar a morte, certa. As religiões argumentam, cada uma à sua

16 maneira, que este mundo é ilusório e que, na verdade, somos eternos – para o bem e para o mal. A medicina

17 busca frenética e ilusoriamente o elixir da vida eterna. Ninguém, porém, tem provas consistentes da eternidade

18 de nossas almas, nem da existência de Matusalém. A única coisa que temos certeza que ultrapassa a vida

19 humana são as obras. Não é por nada que a arte tem um poder tão grande, sendo, inclusive, um caminho para

20 a cura psicanalítica. Nos últimos tempos, infelizmente, as obras realmente valorizadas – ao menos em vida –

21 nos dando a ilusão de ser uma porta para a eternidade são os frutos de nosso trabalho. E trabalhar para que o

22 nosso nome não se esgote com a nossa existência é muito trabalhoso.

23 Aliás, nós, que fomos criados e estamos imersos numa cultura latina, temos grande dificuldade em lidar

24 com o trabalho. Não é para menos, a origem da maldita palavra vem de um instrumento de tortura

25 medieval trippalium, formado por três pontas e do qual – graças aos deuses e à falta de museólogos – já não se

26 tem desenho nem amostra. Todos os latinos vemos o trabalho de forma negativa: trabajo, travail. Mesmo lavoro,

27 em italiano, vem do latim labor, que quer dizer, literalmente, fadiga. Talvez isso ajude a explicar o nosso enorme

28 apreço pelo ócio improdutivo.

29 Os nórdicos, campeões deste mundo trabalhoso – e da Copa 2014 –, usam work, wörk, etc., cuja origem

30 é woelk (feito, pronto). Certamente uma origem muito mais positiva que tortura ou fadiga. Mas hoje, somos

31 obrigados a trabalhar – desculpem a redundância – com sacrifício. Grande sacrifício e o resultado do sacrifício é

32 medido pelo cansaço que carregamos nos nossos corpos e espíritos. Se trabalho é sacrifício, para provar que

33 trabalhamos, temos de reclamar constantemente de nosso cansaço. E há categorias de atividades que

34 simplesmente ficam de fora: música, por exemplo. Músicos, escritores, pintores e outros vagabundos,

35 sabidamente, não trabalham. Não importa o quão pouco durmam e o quanto produzam – parece não haver

36 sacrifício nas suas criações.

37 Atividades intelectuais, decididamente, não são trabalho sob esse ponto de vista. Publicitários,

38 marqueteiros e jornalistas, por exemplo, não trabalham. Daqueles que têm esse tipo de atividade, só se salvam

39 os homens de negócios. Mas para isso, têm de declarar no próprio nome que negam o seu ócio – homens que

40 negam o ócio. Eles são os mais hábeis em transformar o seu ócio em dinheiro – e, por óbvio, têm dificuldade de

41 fazer o contrário – quando fazem, tendem a fazê-lo de alguma maneira brega e ridícula. Tudo bem, isso não

42 vem ao caso. O que interessa é que hoje acreditamos que vale a pena gastar a nossa saúde e encurtar as

43 nossas vidas por conta do trabalho e temos a mais absoluta certeza de que isso vai nos garantir a eternidade.

44 Mas não, isso não é verdade. Só a produção original tem alguma chance de ultrapassar a nossa

45 existência mundana. Estamos aqui para produzir a beleza e a grandeza, não para reproduzir a mediocridade e a

46 baixeza. Se conseguirmos fazer do nosso ofício, arte, talvez possamos trabalhar sem sofrimento e transformar

47 todas nossas atividades em frutos do mais belo de nossa existência.

48 Ouçamos Nieztsche: "Temos a arte para não morrer da verdade."

Disponível em: http://asboascoisasdavida.com.br/sobre-trabalho-e-valor/#sthash.Zx0WRI5E.dpbs Acesso em: 30/11/2017.



Considerando o contexto enunciativo, assinale a alternativa em que o vocábulo destacado NÃO apresenta o sentido indicado:

Alternativas da questão 2165578
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