Questão 2124088

Língua Portuguesa · 2019

Questão

ID 2124088

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Relevância

Ano: 2019 Banca: Colégio Pedro II Órgão: Colégio Pedro II


Texto II

ENTREVISTA COM O REPRESENTANTE INDÍGENA MANOEL BENTO FLORES, 55 ANOS, DA ETNIA TAUREPANG

1 DF: Uma coisa que eu achei muito interessante aqui na comunidade do senhor é a questão que vocês

têm um posicionamento em relação à escola muito pessoal, não têm? [...]

MF: Isso é longo assunto sobre a nossa convivência aqui na área. Eh, eu queria esclarecer assim,

não sei como, se o nosso patriarca Mário Roberto Flores, criou aquela, aquela, uma ideia deu na

5 cabeça dele, né? O pensamento vem da cabeça. Então, ele teve uma ideia de proibir os filhos se

integrarem na sociedade branca. Ele falou assim: “Meu filhos, vocês têm que viver assim do jeito que

nós estamos morando, de agricultura. Se um dia vocês vão chegar a ser pai, vocês vão ter filho, então

vocês têm que passar isso pra filho de vocês, eles têm que trabalhar na agricultura.” Então, ele falava

assim: “Deixa que os brancos vivam assim como eles estão, mas nós temos que manter a nossa

10 cultura até o fim da nossa vida. Enquanto eu estou vivo, jamais eu vou abrir a mão pra construir uma

escola.” Essa ordem que ele deixava pra nós, um conselho. Eu, o filho do patriarca Mário Roberto

Flores, meu nome Manoel Bento Flores, então eu fui mais atentado, eu falava pra meu pai: “Papai,

por que assim? Seu pensamento tá muito errado. Nós vamos viver até dez anos, quinze anos pra lá,

vai chegar a sociedade branca, então não tem como, não vai ter como a gente se entender com ele,

15 e nós falamos taurepang e eles falam português. E aí como é que vai ficar?” Aí ele falava pra mim

assim: “Meu filho, eu sei falar um pouco de português, então eu mesmo, eu vou levar alguns produtos,

eu mesmo compro, eu mesmo trago pra cá. Agora vão trabalhando. Não pensa em estudar.” Então,

com essa proposta, os filhos mais velhos tomaram essa ideia do pai. Então, eles, meus irmãos não

aceitam a escola. Então, a família que vocês estão vendo aqui, as crianças não sabem falar português,

20 ficam surdo ou mudo quando a senhora fala: “Eu quero tomar água.” Então, algumas meninas ficam

perdidas, ficam pegando aquilo que a senhora não tá pedindo, água, mas é assim. Assim nós estamos

vivendo aqui. Mas meu pensamento é diferente. A proposta do patriarca Mário Roberto Flores é essa,

não se integrar com a sociedade branca. Então, pra gente estudar foi difícil, foi muito difícil, pra mim

foi difícil, porque ele comprou o livro como esse, ele me deu: “Meu filho, estuda.” Agora quem é que

25 vai ensinar?

Eu andava com o livro na mão só pra dizer que eu tava estudando, em casa mesmo. Mas eu me

interessei muito pra saber o que o mundo oferece, o que o mundo traz, então eu me interessei muito.

Eu andava com livro e lápis, e depois, eu estou esclarecendo isso, o que é que aconteceu comigo.

Isso aconteceu comigo. [...] Eu pegava o livro, olhava: “Agora quem é que vai me ensinar?” O irmão

30 mais velho saiu pra outra vila longe, o irmão mais velho; e outro filho não sabia ler; outro filho não

sabia ler; outra irmã, que é a nossa irmã, não sabia ler; outra irmã não sabia ler: “Agora quem é que

vai ensinar?” Mas eu acho que com a ajuda de Deus eu consegui descobrir o que tava escrito. Isso

caiu na minha cabeça, eu fui começar a ler. Aí eu perguntava dele, do meu pai: “Papai, é assim?” “É

assim.” Mas ele não ensinava. Só mostrava: “Isso aqui fala.” Então, pra não chegar ler assim, a

escrever um pouco, assinar o nome foi muito difícil, é difícil, é difícil! [...] Se torna problemático pra

35 nós. Agora, pra outro aldeamento, é mais fácil, porque tem professor, tem professora.

DF: E eles mesmos conseguem se defender...

MF: É, eles sabem. Mas nós aqui, nós estamos dentro do aprisco, ninguém pode nem abrir a mão.

Então, a gente anda, a gente se arrasta pra alcançar a estudar, e ler, e escrever, porque hoje a gente

vê a lei do país chegando até as comunidades. A lei do país chega na comunidade através do Ibama,

40 através da Funai, que representa as comunidades indígenas. A lei do país chega através da Polícia

Federal, a lei do país vem através da Polícia Militar, todas as autoridades. Eles trazem a lei que

ninguém conhece. Então, pra gente responder se torna difícil. É por isso que me interesso muito a

estudar. Por isso. Se nós vivemos assim que nem nós vivemos aqui, sem estrada, sem transporte,

sem avião, assim fora da sociedade branca, tudo bem, pra mim não me interessa estudar. Eu mato

45 caça, eu pesco, eu estou comendo, lavrando a terra, trabalhando, mas assim como nós estamos aqui,

no meio de uma tempestade: prende indígena, intima indígena, prende o índio pra ali. Então, a gente

se encontra muito pobre.

FIOROTTI, Devair Antônio. Panton pia’: registro na Terra Indígena São Marcos. Boa Vista: UERR; Wei, 2019. V. I, p. 73-76.



O fragmento da entrevista é encerrado com a seguinte frase:

“Então, a gente se encontra muito pobre.” (linhas 46-47)

Levando em conta a relação de sentido que o conectivo estabelece entre essa frase e o trecho anterior, é correto afirmar que a visão do entrevistado sobre o estudo é a de que este

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