Questão
ID 2122741Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Artigo Definido
Ano: 2015 Banca: IDECAN - Instituto de Desenvolvimento Educacional, Cultural e Assistencial Nacional Órgão: Colégio Pedro II
Texto VII
Fuga
Os meninos sumiam‐se numa curva do caminho. Fabiano adiantou‐se para alcançá‐los. Era preciso aproveitar
a disposição deles, deixar que andassem à vontade. Sinha Vitória acompanhou o marido, chegou‐se aos filhos.
Dobrando o cotovelo da estrada, Fabiano sentia distanciar‐se um pouco dos lugares onde tinha vivido alguns anos;
o patrão, o soldado amarelo e a cachorra Baleia esmoreceram no seu espírito.
05 (...) Os pés calosos, duros como cascos, metidos em alpercatas novas, caminhariam meses. Ou não
caminhariam? Sinha Vitória achou que sim. Fabiano agradeceu a opinião dela e gabou‐lhe as pernas grossas, as
nádegas volumosas, os peitos cheios. As bochechas de sinha Vitória avermelharam‐se e Fabiano repetiu com
entusiasmo o elogio. Era. Estava boa, estava taluda, poderia andar muito. Sinha Vitória riu e baixou os olhos. Não
era tanto como ele dizia não. Dentro de pouco tempo estaria magra, de seios bambos. Mas recuperaria carnes. E
10 talvez esse lugar para onde iam fosse melhor que os outros onde tinham estado. Fabiano estirou o beiço,
duvidando. Sinha Vitória combateu a dúvida. Por que não haveriam de ser gente, possuir uma cama igual à de
seu Tomás da bolandeira? Fabiano franziu a testa: lá vinham os despropósitos. Sinha Vitória insistiu e dominou‐o.
Por que haveriam de ser sempre desgraçados, fugindo no mato como bichos? Com certeza existiam no mundo
coisas extraordinárias. Podiam viver escondidos , como bichos? Fabiano respondeu que não podiam.
15 — O mundo é grande.
Realmente para eles era bem pequeno, mas afirmavam que era grande – e marchavam, meio confiados, meio
inquietos. Olharam os meninos que olhavam os montes distantes, onde havia seres misteriosos. Em que estariam
pensando? Zumbiu sinha Vitória. Fabiano estranhou a pergunta e rosnou uma objeção. Menino é bicho miúdo,
não pensa. Mas sinha Vitória renovou a pergunta – e a certeza do marido abalou‐se. Ela devia ter razão. Tinha
20 sempre razão. Agora desejava saber que iriam fazer os filhos quando crescessem.
— Vaquejar, opinou Fabiano.
Sinha Vitória, com uma careta enjoada, balançou a cabeça negativamente, arriscando‐se a derrubar o baú de
folha. Nossa Senhora os livrasse de semelhante desgraça. Vaquejar, que ideia! Chegariam a uma terra distante,
esqueceriam a catinga onde havia montes baixos, cascalhos, rios secos, espinho, urubus, bichos morrendo, gente
25 morrendo. Não voltariam nunca mais, resistiriam à saudade que ataca os sertanejos na mata. Então eles eram
bois para morrer tristes por falta de espinhos? Fixar‐se‐iam muito longe, adotariam costumes diferentes.
(RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2000.)
Na frase “Por que não haveriam de ser gente, possuir uma cama igual à de seu Tomás da bolandeira?” (texto VII, linhas 11 e 12), o uso do acento grave indicativo de crase se justifica porque a preposição a, exigida pelo adjetivo igual, une-se ao