Questão
ID 2117219Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Vírgula
Ano: 2013 Banca: IFSUL - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Órgão: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense
Falência Múltipla
Por Lya Luft
1 Um jornalista comentou recentemente num programa de televisão 1 que pediu a um médico
2 seu amigo um diagnóstico do que está ocorrendo no Brasil: infecção, virose? A resposta foi perfeita:
3 “Falência múltipla dos órgãos”. Nada mais acertado. Há quase dez anos realizo aqui na coluna
4 minhas passeatas: estas páginas são minha avenida, as palavras são cartazes. Falo em relações
5 humanas e seus dramas, porém mais frequentemente nas coisas inaceitáveis na nossa vida pública.
6 Esgotei a paciência dos leitores reclamando da péssima educação – milhares de alunos sem escola
7 ou abrigados em galpões e salinhas de fundo de igrejas, para chegarem aos 9, 10 anos sem saber
8 ler nem escrever. Professores desesperados tentando ensinar sem material básico, sem estrutura,
9 salários vergonhosos, estímulo nenhum. Universidades cujo nível é seguidamente baixado: em lugar
10 de darem boas escolas a todas as crianças e jovens para que possam entrar em excelentes
11 universidades por mérito e esforço, oferecem-lhes favorecimentos prejudiciais.
12 Tenho clamado contra o horror da saúde pública, mulheres parindo e velhos morrendo em
13 colchonetes no corredor, consultas para doenças graves marcadas para vários meses depois,
14 médicos exaustos trabalhando além dos seus limites, tentando salvar vidas e confortar os pacientes,
15 sem condições mínimas de higiene, sem aparelhamento e com salário humilhante. Em lugar de
16 importarmos não sei quantos mil médicos estrangeiros, quem sabe vamos ser sensatos e oferecer
17 condições e salários decentes aos médicos brasileiros que querem cuidar de nós?
18 Tenho reclamado das condições de transporte, como no recente artigo “Três senhoras
19 sentadas”: transporte caro para o calamitoso serviço oferecido. “Nos tratam como animais”,
20 reclamou um usuário já idoso. A segurança inexiste, somos mortos ao acaso em nossas ruas, e se
21 procuramos não sair de casa à noite somos fuzilados por um bando na frente de casa às 10 da
22 manhã.
23 E, quando nossa tolerância ou resignação chegou ao limite, brota essa onda humana de
24 busca de dignidade para todos. Não se trata apenas de centavos em passagens, mas de respeito.
25 As vozes dizem NÃO: não aos ônibus sujos e estragados, impontuais, motoristas
26 sobrecarregados; não às escolas fechadas ou em ruínas; não aos professores e médicos impotentes,
27 estradas intransitáveis, medo dentro e fora de casa. Não a um ensino em que a palavra “excelência”
28 chega a parecer abuso ou ironia. Não ao mercado persa de favores e cargos em que transformam
29 nossa política, não aos corruptos às vezes condenados ocupando altos cargos, não ao absurdo
30 número de partidos confusos.
31 As reclamações da multidão nas ruas são tão variadas quanto nossas mazelas: por onde
32 começar? Talvez pelo prático, e imediato, sem planos mirabolantes. Algo há de se poder fazer: não
33 creio que políticos e governo tenham sido apanhados desprevenidos, por mais que estivessem
34 alienados em torres de marfim.
35 Infelizmente todo movimento de massas provoca e abriga sem querer grupos violentos e
36 anárquicos: que isso não nos prejudique nem invalide nossas reivindicações.
37 Não sei como isso vai acabar: espero que transformando o Brasil num lugar melhor para
38 viver. Quase com atraso, a voz das ruas quer lisura, ética, ações, cumprimento de deveres,
39 realização dos mais básicos conceitos de decência e responsabilidade cívica, que andavam trocados
40 por ganância monetária ou ânsia eleitoreira. Que sobrevenham ordem e paz.
41 Que depois desse chamado à consciência de quem lidera e governa não se absolvam os
42 mensaleiros, não se deixem pessoas medíocres ou de ética duvidosa em altos cargos, acabem as
43 gigantescas negociatas meio secretas, e se apliquem decentemente somas que poderão salvar
44 vidas, educar jovens, abrir horizontes.
45 Sou totalmente contrária a qualquer violência, mas este povo chegou ao extremo de sua
46 tolerância, percebeu que tem poder, não quer mais ser enganado e explorado: que não se destrua
47 nada, mas se abram horizontes reais de melhoria e contentamento.
Fonte: Revista Veja, 3 de julho de 2013.
Quanto ao uso das aspas no texto, são feitas as seguintes afirmações:
I. Em “Falência múltipla dos órgãos.” (linha 3), foram utilizadas para destacar uma expressão imprópria para o contexto.
II. Em “Três senhoras sentadas” (linhas 18 e 19), marcam uma expressão utilizada em sentido jocoso.
III. Em “Nos tratam como animais” (linha 19), foram utilizadas para reproduzir o discurso direto.
IV. Em “excelência” (linha 27), foram utilizadas para assinalar uma expressão utilizada em tom irônico.
Estão corretas apenas as afirmativas