Questão 2061906

Língua Portuguesa · 2018

Questão

ID 2061906

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Efeitos de Sentidos Decorrentes da Mudança de Ordem

Ano: 2018 Banca: COPESE UFPI - Comissão permanente de Seleção da Universidade Federal do Piauí Órgão: Universidade Federal do Piauí


Leia o texto que se segue e responda às questões de 01 a 10.

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Como os brasileiros veem a ciência e os cientistas?

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Análise de três décadas de pesquisas de opinião desfaz mitos e traz revelações: população diz estar tão interessada em ciência quanto por esporte, mas pouquíssimos conseguem citar o nome de um pesquisador brasileiro ou de uma instituição.

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01------.A celebrada antropóloga norte-americana Margaret Mead (1901-1978) coletou, nos anos 1950,

02--centenas de desenhos de crianças, de diversos países, sobre o satélite artificial soviético Sputnik, a bomba

03--atômica, e, sobretudo, a figura do cientista. Confirmou o que muitos presumiam: a representação popular dos

04--cientistas não era boa. Carregada de estereótipos, mostrava os pesquisadores como afastados da

05--sociedade, estranhos e, eventualmente, perigosos. Mead descobriu que quase ninguém sequer gostaria de

06--se casar, ou que um filho se casasse, com cientistas. Foi com esse triste retrato que surgiram os primeiros

07--indicadores de percepção pública da ciência.

08------As pesquisas de Mead foram motivadas pelo forte impacto na opinião pública dos Estados Unidos do

09--lançamento do Sputnik e do bombardeio atômico às cidades de Hiroshima e Nagasaki. Mas, hoje, tais

10--estudos são feitos constantemente em quase todos os países, inclusive por aqui.

11------No Brasil, a primeira pesquisa nacional sobre opinião da população com respeito a ciência e

12--tecnologia ocorreu em 1987, mas foi seguida de um hiato de quase 20 anos em que só houve levantamentos

13--regionais ou sobre temas específicos. Em 2006, 2010 e 2015, foram feitas novas enquetes por todo o país,

14--por iniciativa do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação (nome atual) em parceria com

15--outras entidades, como o Centro de Gestão e Assuntos Estratégicos, na mais recente. A partir desses dados,

16--podemos ter uma ideia do que brasileiros e brasileiras pensam sobre o assunto, e como isso mudou em 30

17--anos.

18--Visão não depende só da escolaridade

19------E quais são as descobertas principais? Na minha opinião, duas são mais importantes: a primeira é

20--que, apesar do escasso — e extraordinariamente desigual — acesso ao conhecimento científico, os

21--brasileiros são fãs da ciência e, em grande medida, entusiastas das tecnologias. Em segundo lugar,

22--percebemos que as atitudes sobre ciência, sejam eufóricas ou cautelosas, não dependem somente do

23--conhecimento em ciências ou do hábito de informar-se. No caso do relacionamento dos brasileiros com a

24--ciência, o senso comum ditando que "ignorância gera medo" precisa ser repensado.

25--Pouco informados, bastante interessados

26------Esses 30 anos de enquetes nacionais nos permitem confirmar, antes de tudo, um fato já conhecido a

27--partir de pesquisas em outras áreas: a violenta desigualdade de oportunidades e acesso ao conhecimento.

28--Menos de um cidadão em cada 10 diz se lembrar do nome de algum cientista brasileiro (entre os mais

29--citados, Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Miguel Nicolelis, Vital Brazil, Santos Dumont e Cesar Lattes). Só 13%

30--se recordam de alguma instituição que faça pesquisa científica (entre as mais citadas, Fiocruz, Embrapa,

31--Instituto Butantan, USP, IBGE). Entre pessoas de baixa escolaridade, tal percentual se aproxima de zero,

32--mas muitos com ensino superior também não conseguem citar qualquer instituição ou cientista.

33------É um dado paradoxal. Em um país onde todo cidadão diz que a educação é importante, onde tanto

34--aqueles que estudaram numa universidade como os que não o fizeram percebem o prestígio dessas

35--instituições e, frequentemente, conhecem o nome das principais em sua região, entidades de pesquisa

36--celebradas ou nossas maiores universidades não são lembradas ao se perguntar sobre ciência. Parecem

37--estar associadas, na mente de muitos, ao ensino e à formação, mas não tanto à ciência e à pesquisa.

38------Tais dados são coerentes com indicadores da área de educação e com outros dados dessas

39--enquetes, por exemplo sobre a frequência a locais de difusão da cultura, como museus, jardins botânicos e

40--bibliotecas. A visitação dos brasileiros a esses lugares aumentou nos últimos anos, graças a investimentos e

41--políticas públicas, mas ainda é pequena se comparada aos índices de outros países. Reflete sobretudo a

42--desigualdade: pessoas de baixa renda e escolaridade frequentam menos tais espaços.

43------Uma antiga hipótese, um pouco ingênua, mas ainda presente no senso comum, é que o escasso

44--conhecimento é fruto direto da suposta falta de interesse dos brasileiros, e que, portanto, se conseguíssemos

45--"intrigar", "cativar" mais os cidadãos, a familiaridade com a ciência aumentaria. Muitos editores, jornalistas,

46--cientistas ou políticos ainda hoje estão convencidos de que os brasileiros, em sua maioria, não têm interesse

47--por temas de cunho científico ou tecnológico. Pois essa convicção é, ao menos em parte, falha: nem sempre

48--a falta de informação se deve à falta de percepção da relevância de um tema; e os dados demonstram que,

49--no Brasil, somos, sim, interessados nesses assuntos.

50------Dados das enquetes feitas ao longo de 30 anos confirmam: os brasileiros se declaram interessados

51--em C&T, em média, tanto quanto os habitantes da Europa e dos Estados Unidos. Tal interesse cresceu após

52--1986, entre todos os grupos sociais. E tem mais: os brasileiros tendem a apreciar C&T (em 2015, 61% diziam

53--ser interessados ou muito interessados) tanto quanto o esporte (56%), tema apaixonante para a nação.

54--Também se dizem tão interessados em temas como saúde ou meio ambiente quanto em religião, vivência

55--central para a maioria.

56--Otimismo, sem ingenuidade

57------Outros aspectos que marcam nossa cultura — apontam as pesquisas — são o otimismo em relação

58--ao desenvolvimento da C&T e a visão positiva sobre ciência e cientistas. "Ordem e progresso" não parece ter

59--ficado só em nossa bandeira. A maioria dos brasileiros valoriza os benefícios da C&T, confia nos cientistas

60--como fonte de informação, tem uma imagem em geral positiva do cientista e de suas motivações, além de

61--considerar importante conhecer a ciência e investir em pesquisa.

62------Os brasileiros, em média, se declaram mais otimistas quanto aos efeitos da C&T do que os cidadãos

63--da maioria dos países europeus. A fração de pessoas que consideram que a ciência e a tecnologia só trazem

64--benefícios para a humanidade está entre as maiores do mundo, e aumentou ao longo das décadas.

65------A confiança nos cientistas também é elevada. Questionados em quais fontes de informação confiam

66--mais e menos, os brasileiros colocam os políticos como os atores sociais menos confiáveis. No topo da

67--confiabilidade, médicos, cientistas, jornalistas. Ao crescer da escolaridade, confiam mais e mais nos

68--cientistas que trabalham em instituições públicas.

69------Apesar de muitos cientistas estarem preocupados com movimentos anticiência, no Brasil não

70--podemos dividir a população em um grupo a favor e outro contra "a ciência". Existem grupos preocupados

71--com alguns aspectos do desenvolvimento tecnológico, mas que, em outros, são interessados em C&T,

72--favoráveis à pesquisa e confiantes na importância da ciência. As pessoas que se declaram abertamente

73--desconfiadas dos cientistas, que enxergam na C&T apenas implicações negativas, ou, ainda, que atribuem

74--aos cientistas motivações egoístas são uma fração bem abaixo de 10%.

75------Vários indicadores confirmam a imagem positiva de que os cientistas gozam em nossa sociedade.

76--Por exemplo, 44% dizem que uma das motivações do cientista é "contribuir para o avanço do conhecimento";

77--39% que é também "solucionar problemas das pessoas". E, em direto contraste com a posição de nossos

78--governantes, a maioria dos cidadãos acredita que, mesmo em momentos de crise econômica, o investimento

79--em C&T deve aumentar.

80------Tais opiniões não são apenas visões idílicas ou ingênuas de quem nunca parou para pensar nas

81--relações entre o progresso técnico, a pesquisa científica e as dimensões éticas, econômicas e ambientais de

82--nossas ações.

83--A visão da ciência: múltiplas aplicações

84------Fazer experimentos sobre como formamos opiniões a favor ou contra determinadas áreas da ciência,

85--descobrir que fatores afetam nossas atitudes ou como adquirimos conhecimento são pontos que interessam

86--a áreas diversas como psicologia social, educação, ciência da comunicação, antropologia, sociologia, dentre

87--outras. Permite investigar aspectos profundos de como funcionam a cultura, a imaginação, a difusão do

88--conhecimento.

89------As aplicações práticas de tais pesquisas são também importantes. Ao saber quais variáveis afetam o

90--interesse das pessoas por C&T, ou suas atitudes, podemos identificar públicos-alvo específicos, fortalecer a

91--apropriação da cultura científica, fornecer ferramentas para a divulgação científica ou as políticas

92--educacionais. Os dados de percepção permitem construir indicadores de interesse e apropriação social em

93--C&T, que podem ajudar a formular ou avaliar políticas públicas.

94------Homens e mulheres concordam, em sua maioria, que a pesquisa científica é essencial para indústria,

95--que os governantes deveriam seguir orientações de cientistas, que C&T ajudam na diminuição das

96--desigualdades. Por outro lado, a ciência não é vista como panaceia ou a única fonte dos avanços sociais.

97--Metade da população, aproximadamente, discorda de que C&T possam eliminar pobreza e fome. Muitos

98--também concordam que os desenvolvimentos de C&T podem ser "responsáveis" por problemas ambientais.

99--Metade dos brasileiros acredita que a pesquisa precisa obedecer às regulamentações, e que os cientistas

100--devem ser responsabilizados pelo uso do conhecimento que produzem. Metade defende o princípio de

101--precaução: uma nova tecnologia não deve ser usada se ainda não forem bem conhecidos seus riscos.

102------Por fim, a maioria da população concorda com uma afirmação forte: "Os cientistas têm

103--conhecimentos que os tornam perigosos". Tais pessoas, contudo, em geral não negam que os benefícios da

104--ciência sejam maiores que os malefícios, nem possuem uma visão negativa da figura do cientista: não se

105--trata tanto de ser "contra" os cientistas, mas de estarem preocupados com a relação entre desenvolvimento e

106--mercado, democracia, meio ambiente. A maioria dos entrevistados acredita que os cientistas tenham

107--obrigação de expor publicamente os riscos, que a população deva ser ouvida nas grandes decisões sobre

108--C&T, e que é capaz de entender o conhecimento científico se for bem explicado.

109------Tais preocupações quanto às implicações da ciência não são sinônimo de posturas anticientíficas.

110--Por exemplo, entre os brasileiros que se declaram muito preocupados com temas como mudanças climáticas,

111--agrotóxicos e energia nuclear, são poucos os que expressam visões negativas sobre a ciência: a maioria dos

112--"preocupados" são, aliás, mais informados e interessados em C&T do que os demais.

113--Opinião sobre C&T: de onde vem?

114------No Brasil, a ignorância sobre ciência não gera medo. Por outro lado, elevada escolaridade não é

115--sinônimo de visões unicamente positivas sobre C&T. Então, que tipo de fatores contribuem para nossas

116--atitudes? Não sabemos ainda. É um conjunto de elementos que não dependem apenas do acesso à

117--informação ou de escolaridade e renda. Alguns indícios são avaliados: atitudes e interesses podem depender

118--do tipo de posicionamento moral, e do engajamento em atividades sociais e políticas.

119------Algumas análises e modelos estatísticos mostraram que as pessoas têm mais chances de ter

120-- interesse por C&T não --somente ao crescer de sua escolaridade, mas, por exemplo, quando possuem

121--interesse em temas ambientais ou algum --tipo de engajamento social e político (participam de movimento

122--social, partido, sindicato etc.). Essas pessoas têm --menos chances que os demais brasileiros de serem

123--euforicamente otimistas ou puramente pessimistas: tentar resolver problemas concretos, talvez, nos leve a

124--uma visão mais cheia de nuances, menos idealizada, de como funciona a ciência. Visões sobre paridade de

125--gênero também se constituem de forma entrelaçada com visões sobre ciência: as pessoas menos

126--interessadas em C&T tendem a ser aquelas (poucas) que concordam com afirmações do tipo "os homens

127--são cientistas melhores do que as mulheres".

128------São apenas indícios, mas nos levam. a uma hipótese: será que as atitudes sobre ciência, interesse,

129--hábitos de buscar (ou não) conhecimento, dependem não só do grau de "alfabetização científica", mas

130--também de valores, redes de contatos e engajamento na sociedade? Estamos tentando descobrir a

131--resposta. Estamos estudando, como Margaret Mead, desenhos de crianças, fazendo experimentos com

132--jovens para seguir na rede sua busca por informação. Estamos investigando a difusão de boatos, ou, ainda,

133--estudando os comentários dos usuários de sites de ciência… Quem sabe, em breve, os leitores da Ciência

134--Hoje terão uma exclusiva sobre novas descobertas!

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(CASTELFRANCHI, Yurij. Como os brasileiros veem a ciência e os cientistas?, Ciência Hoje, set. 2018, ed. 347. Disponível em: <http://cienciahoje.org.br/artigo/comoos-brasileiros-veem-a-ciencia-e-os-cientistas/>)



Dentre as descrições nominais a seguir, indique a única em que o adjetivo NÃO pode vir antes ou depois do substantivo sem que a mudança de posição ocasione mudança no significado da frase em que ocorre no texto.

Alternativas da questão 2061906
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