Questão
ID 2014821Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Viés
Ano: 2021 Banca: FUNDATEC - Fundação Universidade Empresa de Tecnologia e Ciências Órgão: Procuradoria-Geral do Estado - PGE MA
Instrução: As questões de números 01 a 08 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.
01 Nos nossos primeiros anos de vida, nossos pais e cuidadores não se importam muito com o
02 que fazemos. A nossa existência, por si só, é o bastante para nos garantir afeto incondicional.
03 Arrotamos durante a refeição, gritamos com toda a força, não ganhamos dinheiro algum e não
04 temos amigos importantes – ainda assim somos valorizados.
05 Mas chegar à idade adulta significa assumir nosso lugar ao sol em um mundo dominado por
06 pessoas indiferentes e esnobes, cujo comportamento está no cerne da ansiedade causada pelo
07 desejo por status. Embora alguns amigos venham a prometer não nos rejeitar mesmo que nos
08 desgracemos e declaremos falência (e, dependendo do dia, podemos até acreditar neles), é devido
09 ___ atenções esparsas dos esnobes que nos mantemos.
10 Estar em companhia de esnobes pode nos enraivecer e irritar, porque percebemos que
11 aquilo que somos verdadeiramente – isto é, o que somos sem levar em conta o nosso status –
12 exerce pouquíssima influência no comportamento deles em relação a nós. Podemos ser dotados
13 da sabedoria de Salomão e da engenhosidade e da inteligência de Ulisses, mas, se não
14 ostentarmos emblemas socialmente reconhecidos de nossas qualidades, nossa existência
15 continuará sendo insignificante para os esnobes.
16 Essa natureza condicional talvez nos seja dolorosa porque o amor adulto conserva, como
17 protótipo, o amor incondicional dos pais pelos filhos. Nossas primeiras experiências de amor
18 __________ de cuidados que recebemos em uma condição desprotegida, vulnerável. Por
19 definição, os bebês não podem pagar com recompensas mundanas a quem lhes presta cuidados.
20 Se são amados e cuidados é pelo que são – a identidade em seu estado mais despido, mais
21 despojado. Eles são amados por seu caráter descontrolado, barulhento e teimoso – ou apesar
22 dele.
23 É só quando amadurecemos que a afeição começa a depender de realização: ser educado
24 e bem-sucedido durante e após os anos escolares, adquirir distinção e prestígio. Tais esforços
25 podem atrair o interesse dos outros, mas o anseio emocional subjacente não é tanto o de
26 deslumbrar as pessoas com os nossos atos, mas sim o de reviver a sensação de receber mimos
27 constantes e indiscriminados, como quando empilhávamos tijolinhos de madeira no chão da
28 cozinha e tínhamos um corpo rechonchudo e olhos grandes e confiantes.
29 É indício desse anseio que só o adulador mais inepto admitiria basear uma amizade em sua
30 atração pelo poder ou pela fama. Esses atrativos pareceriam motivos insultantes e efêmeros para
31 sermos convidados para um almoço, porque não fazem parte de nossa identidade verdadeira e
32 irredutível. Podemos perder nossos empregos e ter nossa influência destruída sem que pereçamos
33 ou que nossa necessidade de afeição, originada na infância, seja extinta. Aduladores talentosos,
34 portanto, sabem que devem sugerir que estão interessados estritamente na parte sem status de
35 sua presa, que o carro oficial, os perfis nos jornais ou o cargo de diretoria da empresa são
36 características que apenas coincidem com uma ligação profunda e pura.
Adaptado de: Botton, Alain de. Desejo de status. Porto Alegre: L&PM, 2021.
Com a expressão Essa natureza condicional (l. 16), o texto faz referência à necessidade de