Questão
ID 1896310Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Predicado Verbal
Ano: 2024 Banca: FUNDATEC - Fundação Universidade Empresa de Tecnologia e Ciências Órgão: Prefeitura Municipal de Aratiba
A terceirização da memória
Por Juliana Bublitz
- Você tem um minuto para responder, sem espiar no celular (não vale trapa__ear):
- quantos números de telefone sabe de cor? Dois, três? Ou nem isso?
- Até hoje lembro de dí__itos da era pré-internet. O contato de casa era 711-3777. O da
- minha avó, 713-2641. Recordo do som do disco do aparelho girando, levado pelo dedo indicador,
- e de tagarelar com as amigas de infância, cujos telefones fixos jamais esqueci. Nenhum desses
- números existe mais, mas seguem guardados como te__ouros arqueológicos inúteis.
- Naquela época, a gente memorizava tudo. No máximo, consultava uma agenda de papel
- aos frangalhos, do tamanho da palma da mão, que ficava na mesinha da sala.
- Aí veio a revolução digital, com Apple, Microsoft e todas as bigtechs. Surgiram o Motorola
- tijolão, o Nokia tijolinho e o Blackberry com suas teclas mínimas. Em menos de 20 anos, com a
- chegada dos smartphones e de suas funcionalidades sem fim, as marcas passaram a ser
- extensões do nosso corpo. Os dispositivos servem até para telefonar, só que hoje ninguém mais
- precisa disso. Falar para quê ▲
- A tecnologia mudou o mundo e a forma como nos relacionamos com ele. Tudo ficou mais
- fácil. Deixou de ser necessário guardar informações “na caixola”, como diria minha avó (aquela
- mesma, do 713-2641), e passou a ser possível terceirizar a memória. Ganhamos HDs externos.
- Qual é o sentido de perder tempo memorizando algo, se temos tudo na palma da mão?
- Hoje, a vida de uma pessoa cabe no celular. A agenda de telefones é só uma gota no
- oceano de bites.
- Os contatos estão ali, assim como a conta do banco, a lista do super, o endereço do
- dentista, a tese de doutorado, as datas de aniversário das pessoas que amamos, o roteiro das
- férias, o aplicativo de rotas com GPS, os ingressos para o teatro. O que não sabemos (ou
- esquecemos?) está no Google ou no ChatGPT. Basta digitar e pronto. Resolvido em segundos.
- O resultado disso é uma vida muito mais prática, mas um bando de gente sequestrada
- pelo próprio celular, como já escreveu a Martha Medeiros em uma de suas crônicas geniais.
- Viramos “celular-dependentes”, e a nossa memória também.
- Dia desses, consegui a façanha de esquecer o aparelho em um veículo da Uber. Percebi
- segundos depois, quando fui checar as mensagens e quase enlouqueci de mãos vazias. Bateu o
- desespero. E agora?
- Não sabia o número de ninguém, não tinha acesso ao Whats, não podia sequer ver as
- horas nem verificar o e-mail. Para quem ligar para tentar resolver o perrengue?
- Graças a uma colega que (ufa!) não tinha esquecido o celular no carro, foi possível fazer
- contato com a empresa e chegar até o motorista. Ele voltou mais tarde para devolver o item
- perdido.
- Foram os 45 minutos mais agonizantes dos últimos tempos. E ali percebi meu vício em
- tecnologia. Sem o smartphone, a vida travou, e a terceirização da memória se tornou um
- problemão.
- Virou amnésia digital.
- Sabe o que fiz depois disso? Nada. Ou melhor, fiz, sim: decorei três contatos de pessoas
- próximas para o caso de emergências. Estou salva. Até ser traída pela memória outra vez.
(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/juliana-bublitz/ultimas-noticias/ – texto adaptado especialmente para esta prova).
Considerando o fragmento retirado do texto “Naquela época, a gente memorizava tudo”, analise as perguntas abaixo:
- Qual é a classificação do predicado?
- A oração apresenta complemento verbal?
Assinale a alternativa que contém, correta e respectivamente, as respostas para as perguntas acima.