Questão 1895605

Língua Portuguesa · 2014

Questão

ID 1895605

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Sentidos do texto

Ano: 2014 Banca: UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina Órgão: Universidade Federal de Santa Catarina


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Texto 3

O viajante clandestino

Mia Couto

– Não é arvião. Diz-se: avião.

O menino estranhou a emenda de sua mãe. Não mencionava ele uma criatura do ar? A criança

tem a vantagem de estrear o mundo, iniciando outro matrimônio entre as coisas e os nomes. Outros

a elas se assemelham, à vida sempre recém-chegando. São os homens em estado de poesia, essa

infância autorizada pelo brilho da palavra.

– Mãe: avioneta é a neta do avião?

– Vamos para a sala de espera, ordenou a mãe.

Ela lhe admoestou, prescrevendo juízo. Aquilo era um aeroporto, lugar de respeito. A senhora

apontou os passageiros, seus ares graves, soturnos. O menino mediu-se com aquele luto, aceitando

os deveres do seu tamanho. Depois, se desenrolou do colo materno, fez sua a sua mão e foi à

vidraça. Espreitou os imponentes ruídos, alertou a mãe para um qualquer espanto. Mas a sua voz se

afogou no tropel dos motores.

Eu assistia a criança. Procurava naquele aprendiz de criatura a ingenuidade que nos autoriza a

sermos estranhos num mundo que nos estranha. Frágeis onde a mentira credencia os fortes.

Seria aquele menino a fratura por onde, naquela toda frieza, espreitava a humanidade? No

aeroporto eu me salvava da angústia através de um exemplar da infância.

O menino agora contemplava as traseiras do céu, seguindo as fumagens, lentas pegadas dos

instantâneos aviões. Ele então se fingiu um aeroplano, braços estendidos em asas. Descolava do

chão, o mundo sendo seu enorme brinquedo. E viajava por seus infinitos, roçando as malas e as

pernas dos passageiros entediados. Até que a mãe debitou suas ordens. Ele que recolhesse a

fantasia, aquele lugar era pertença exclusiva dos adultos.

– Te ajeita. Estamos quase partindo.

– Então vou me despedir do passaporteiro.

A mãe corrigiu em dupla dose. Primeiro, não ia a nenhuma parte. Segundo, não se chamava

assim ao senhor dos passaportes. Mas só no presente o menino se deixava calar. Porque, em seu

sonho, mais adiante, ele se proclama:

– Quando for grande quero ser passaporteiro.

E ele já se antefruía, de farda, dentro do vidro. Ele é que autorizava a subida aos céus.

– Vou estudar para migraceiro.

– Tá doido, filho. Fica quieto.

O garoto guardou seus jogos, contido. Que criança, neste mundo, tem vocação para adulto?

Saímos da sala para o avião. Chuviscava. O menino seguia seus passos quando, na lisura do

asfalto, ele viu o sapo. Encharcado, o bicho saltiritava. Sua boca, maior que o corpo, traduzia o

espanto das diferenças. Que fazia ali aquele representante dos primórdios, naquele lugar de futuros

apressados?

O menino parou, observador, cuidando os perigos do batráquio. Na imensa incompreensão do

asfalto, o bicho seria esmagado por cega e certeira roda.

– Mãe, eu posso levar o sapo?

A senhora estremeceu de horror. Olhou envergonhada, pedindo desculpas aos passantes.

Então, começou a disputa. A senhora obrigava o braço do filho, os dois se teimavam. Venceu a

secular maternidade. O menino, murcho como acento circunflexo, subiu as escadas, ocupou seu

lugar, ajeitou o cinto.

Do meu assento eu podia ver a tristeza desembrulhando líquidas miçangas no seu rosto. Fiz-

lhe sinal, ele me encarou de soslado. Então, em seu rosto se acendeu a mais grata bandeira de

felicidade. Porque do côncavo de minhas mãos espreitou o focinho do mais clandestino de todos os

passageiros.

Disponível em: <http://jardimdasdelicias.blogs.sapo.pt/277137.html>. [Adaptado]

Acesso em: 8 abr. 2014.

Glossário

Admoestar – repreender branda e benevolamente

Antefruir – usufruir antecipadamente

Batráquio – anfíbio

Debitar suas ordens – anunciar, proclamar suas regras

Fumagem – fumaça

Soslado – lado, oblíquo

Soturno – aspecto triste, taciturno

Tropel – grande ruído



Com base no Texto 3, assinale a alternativa CORRETA.

Alternativas da questão 1895605
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