Questão
ID 1892859Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Objetividade e Subjetividade na Comunicação
Ano: 2019 Banca: UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina Órgão: Universidade Federal de Santa Catarina
Texto 1
A linguagem e a constituição da subjetividade
- _____ [...] tema da “constitutividade” remete, de alguma forma, a questões que demandam
- explicitação, já que supõe uma teoria do sujeito e esta, por seu turno, implica a definição de
- um lugar nem sempre rígido a inspirar práticas pedagógicas e por isso mesmo políticas.
- _____Quando se admite que um sujeito se constitui, o que se admite junto com isso? Que
- energeia põe em movimento este processo? É possível determinar seus pontos alfa e ômega?
- Em que sentido a prática pedagógica faz parte deste processo? Com que “instrumentos” ou
- “mediações” trabalha este processo?
- _____Obviamente, este conjunto de questões, a que outras podem ser somadas, põe em foco
- a totalidade do fenômeno humano, sua destinação e sua autocompreensão. Habituados à
- higiene da racionalidade, ao inescapável método de pensar as partes para nos aproximarmos
- de respostas provisórias que, articuladas um dia – sempre posto em suspenso e remetido às
- calendas gregas – possam dar do todo uma visão coerente e uniforme, temos caminhado e
- nos fixado nas partes, nas passagens, mantendo sempre no horizonte esta suposição de que
- o todo será um dia compreendido.
- _____Meu objetivo é pôr sob suspeição a esperança que inspira a construção deste horizonte,
- o ponto de chegada. E pretendo fazer isso discutindo precisamente a noção de
- constitutividade e as seguintes implicações que me parecem acompanhá-la:
- _____1. admitir a noção de constitutividade implica em admitir um espaço para o sujeito;
- _____2. admitir a noção de constitutividade implica em admitir a inconclusibilidade;
- _____3. admitir a noção de constitutividade implica em admitir o caráter não fechado dos
- “instrumentos” com que se opera o processo de constituição;
- _____4. admitir a noção de constitutividade implica em admitir a insolubilidade.
- _____No movimento pendular da reflexão sobre o sujeito, os pontos extremos a que remete
- nossa cultura situam o sujeito ora em um de seus lados, tomando-o como um deus ex-nihilo,
- fonte de todos os sentidos, território previamente dado já que racional por natureza (e por
- definição), espaço onde se processa toda a compreensão. Na outra extremidade, o sujeito é
- considerado mero ergon, produto do meio ambiente, da herança cultural de seu passado.
- Entre a metafísica idealista e o materialismo mecanicista, pontos extremos, movimenta-se o
- pêndulo. E a força deste movimento é territorializada em um de seus pontos. A absorção de
- elementos outros, não essenciais segundo o espaço em que se situa a reflexão, são acidentes
- incorporados ao conceito de sujeito que cada corrente professa. Exemplifiquemos pelas posições
- mais radicais.
- _____Do ponto de vista de uma metafísica religiosa, destinando-se o homem a seu re-
- encontro paradisíaco com seu Criador, de quem é feito imagem e semelhança, os desvios de
- rota, os pecados, enfim a vida vivida por todos nós, neste tempo de provação, a consciência
- que, em sua infinita bondade, nos foi concedida pelo Criador, aponta-nos o bem e o mal,
- ensina-nos, do nada, o arrependimento pela prática deste e a alegria pela prática daquele.
- Deus e o Diabo, ambos energeia. Impossível um sem o outro, como mostra o “evangelista”
- contemporâneo José Saramago em O Evangelho Segundo Jesus Cristo.
- _____Do ponto de vista de um materialismo estreito, o sujeito na vida que vive apenas ocupa
- lugares previamente definidos pela estrutura da sociedade, cujas formações discursivas e
- ideológicas já estatuíram, desde sempre, o que se pode dizer, o que se pode pensar.
- Recortaram o dizível e o indizível. Toda e qualquer pretensão de dizer a sua palavra, de
- pensar a motu proprio não passa de uma ilusão necessária e ideológica para que o Criador,
- agora o sistema, a estrutura se reproduza em sua igualdade de movimentos. Assujeitado
- nestes lugares, o sujeito conduz-se segundo um papel previamente dado. Representamos na
- vida. Infelizmente uma representação definitiva e sem ensaios. Sempre a representação final
- de um papel que não escolhemos. E aqui a lembrança de leitor remete a Milan Kundera de A
- Insustentável Leveza do Ser.
- _____Em nenhum dos extremos a noção de constitutividade situa a essência do que define o
- sujeito. Elege o fluxo do movimento como seu território sem espaço. Lugar de passagem e na
- passagem a interação do homem com os outros homens no desafio de construir categorias de
- compreensão do mundo vivido, nem sempre percebido e dificilmente concebido de forma
- idêntica pela unicidade irrepetível que é cada sujeito. As interações são perpassadas por
- histórias contidas e nem sempre contadas. Por interesses contraditórios, por incoerências.
- São de um presente que, em se fazendo, nos escapa porque sua materialidade é inefável,
- contendo no aqui e agora as memórias do passado e os horizontes de possibilidades de um
- futuro. Ao associarem a noção de constitutividade à de interação, escolhendo esta como o
- lugar de sua realização, as concepções bakhtinianas de linguagem e de sujeito trazem, ao
- mesmo tempo, para o processo de formação da subjetividade, o outro, alteridade necessária,
- e o fluxo do movimento, cuja energia não está nos extremos, mas no trabalho que se faz
- cotidianamente, movido por interesses contraditórios, por lutas, mas também por utopias, por
- sonhos. Presente limitado pelas suas condições de sua possibilidade, e porque limitado
- mostra que há algo para além das margens (ou não haveria limites). Os instrumentos
- disponíveis, construídos pela herança cultural e reconstruídos, modificados, abandonados ou
- recriados pelo presente, têm um passado, mas seu sentido se mede pelo que no presente
- constrói como futuro.
- _____Professar tal teoria do sujeito é aceitar que somos sempre inconclusos, de uma
- incompletude fundante e não casual. Que no processo de nos compreendermos a nós
- próprios apelamos para um conjunto aberto de categorias, diferentemente articuladas no
- processo de viver. Somos insolúveis (o que está longe de volúveis) no sentido de que não há
- um ponto rígido, duro, fornecedor de todas as explicações.
- _____Que papel reservar à educação e à leitura neste processo? Considerando que a
- educação somente se dá pelo processo de mediação entre sujeitos e que a leitura é uma das
- formas de interação entre os homens – um leitor diante de uma página escrita sabe que por
- trás desta há um autor (seja ele da ordem que for) com que está se encontrando, então
- devemos incluir todos os processos educacionais e a leitura entre as interações e por isso
- mesmo dentro dos processos de constituição das subjetividades.
- _____A leitura do mundo e a leitura da palavra são processos concomitantes na constituição
- dos sujeitos. Ao “lermos” o mundo, usamos palavras. Ao lermos as palavras, reencontramos
- leituras do mundo. Em cada palavra, a história das compreensões do passado e a construção
- das compreensões do presente que se projetam como futuro. Na palavra, passado, presente e
- futuro se articulam.
GERALDI, João Wanderley. A aula como acontecimento. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010, p. 30-32. [Adaptado].
Assinale a alternativa que melhor exprime o tema central do texto 1.