Questão 173564

Língua Portuguesa · 2022

Questão

ID 173564

Disciplina: Língua Portuguesa

Assuntos: Crônica, Sentidos do texto

Ano: 2022 Banca: Fundação CESGRANRIO Órgão: Banco da Amazônia


Uma cena


1--------É de manhã. Não num lugar qualquer, mas no

Rio. E não numa época qualquer, mas no outono.

Outono no Rio. O ar é fino, quase frio, as pedras portuguesas da calçada estão úmidas. No alto, o céu já

é de um azul escandaloso, mas o sol oblíquo ainda

não conseguiu vencer os prédios e arrasta seus raios

pelo mar, pelas praias, por cima das montanhas, longe dali. Não chegou à rua. E, naquele trecho, onde

as amendoeiras trançam suas copas, ainda é quase

madrugada.

2--------Mesmo assim, ela já está lá – como se à espera

do sol.

3--------É uma senhora de cabelos muito brancos, sentada em sua cadeira, na calçada. Na rua tranquila, de pouco

movimento, não passa quase ninguém a essa

hora, tão de manhãzinha. Nem carros, nem pessoas.

O que há mais é o movimento dos porteiros e dos

pássaros. Os primeiros, com suas vassouras e mangueiras, conversando sobre o futebol da véspera. Os

segundos, cantando – dentro ou fora das gaiolas.

4--------Mas, mesmo com tão pouco movimento, a senhora já está sentada muito ereta, com seu vestido

estampado, de corte simples, suas sandálias. Tem o

olhar atento, o sorriso pronto a cumprimentar quem

surja. No braço da cadeira de plástico branco, sua

mão repousa, mas também parece pronta a erguer-se num aceno, quando alguém passar.

5--------É uma cena bonita, eu acho. Cena que se repete

todos os dias. Parece coisa de antigamente.

6--------Parece. Não fosse por um detalhe. A senhora,

sentada placidamente em sua cadeira na calçada,

observando as manhãs, está atrás das grades.

7--------Meu irmão, que foi morar fora do Brasil e ficou 15

anos sem vir aqui, ao voltar só teve um choque: as

grades. Nada mais o impressionou, tudo ele achou

normal. Fez comentários vagos sobre as árvores

crescidas no Aterro, sobre o excesso de gente e carros, tudo sem muita ênfase. Mas e essas grades, me

perguntou, por que todas essas grades? E eu, espantada com seu espanto, eu que de certa forma já me

acostumara à paisagem gradeada, fiquei sem saber

o que dizer.

8-------Penso nisso agora, ao passar pela rua e ver

aquela senhora. Todos os dias, o porteiro coloca ali

a cadeira para que ela se sente, junto ao jardim, em

frente à portaria, por trás da proteção do gradil pintado com tinta cor de cobre. E essa cena tão singela,

de sabor tão antigo, se desenrola assim, por trás de

barras de ferro, que mesmo sendo de alumínio para

não enferrujar são de um ferro simbólico, que prende,

constrange, restringe.

9-------Eu, da calçada, vejo-a sempre por entre as tiras

verticais de metal, sua figura frágil me fazendo lembrar os passarinhos que os porteiros guardam nas

gaiolas, pendurados nas árvores.



SEIXAS, Heloisa. Contos mínimos. Rio de Janeiro: Record, 2001.

O texto apresenta-se dividido em dois momentos: o primeiro, em que o narrador descreve minuciosamente a cena observada; e o segundo, em que o narrador se aproxima mais do leitor, estabelecendo, com ele, uma quase conversa e colocando-se explicitamente no texto.


O início do segundo momento se dá com o trecho:

Alternativas da questão 173564
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