Questão 173518

Língua Portuguesa · 2023

Questão

ID 173518

Disciplina: Língua Portuguesa

Assuntos: Inferência Textual, Possibilidades de Paralelismo, Sentidos do texto

Ano: 2023 Banca: Fundação CESGRANRIO Órgão: Petrobras Transporte S/A


À moda brasileira

\(\quad\)

1 \(\quad\) Estou me vendo debaixo de uma árvore, lendo a

pequena história da literatura brasileira.

2\(\quad\) Olavo Bilac! – eu disse em voz alta e de repente parei quase num susto depois que li os primeiros

versos do soneto à língua portuguesa: Última flor do

Lácio, inculta e bela / És, a um tempo, esplendor e

sepultura.

3\(\quad\) Fiquei pensando, mas o poeta disse sepultura?!

O tal de Lácio eu não sabia onde ficava, mas de sepultura eu entendia bem, disso eu entendia, repensei baixando o olhar para a terra. Se escrevia (e já

escrevia) pequenos contos nessa língua, quer dizer

que era a sepultura que esperava por esses meus

escritos?

4\(\quad\) Fui falar com meu pai. Comecei por aquelas

minhas sondagens antes de chegar até onde queria, os tais rodeios que ele ia ouvindo com paciência

enquanto enrolava o cigarro de palha, fumava nessa

época esses cigarros. Comecei por perguntar se minha mãe e ele não tinham viajado para o exterior.

5\(\quad\) Meu pai fixou em mim o olhar verde. Viagens,

só pelo Brasil, meus avós é que tinham feito aquelas longas viagens de navio, Portugal, França, Itália...

Não esquecer que a minha avó, Pedrina Perucchi,

era italiana, ele acrescentou. Mas por que essa curiosidade?

6 \(\quad\) Sentei-me ao lado dele, respirei fundo e comecei

a gaguejar, é que seria tão bom se ambos tivessem

nascido lá longe e assim eu estaria hoje escrevendo

em italiano, italiano! – fiquei repetindo e abri o livro

que trazia na mão: Olha aí, pai, o poeta escreveu

com todas as letras, nossa língua é sepultura mesmo, tudo o que a gente fizer vai para debaixo da terra,

desaparece!

7\(\quad\) Calmamente ele pousou o cigarro no cinzeiro ao

lado. Pegou os óculos. O soneto é muito bonito, disse

me encarando com severidade. Feio é isso, filha, isso

de querer renegar a própria língua. Se você chegar a

escrever bem, não precisa ser em italiano ou espanhol ou alemão, você ficará na nossa língua mesmo,

está me compreendendo? E as traduções? Renegar

a língua é renegar o país, guarde isso nessa cabecinha. E depois (ele voltou a abrir o livro), olha que

beleza o que o poeta escreveu em seguida, Amo-te

assim, desconhecida e obscura, veja que confissão

de amor ele fez à nossa língua! Tem mais, ele precisava da rima para sepultura e calhou tão bem essa

obscura, entendeu agora? – acrescentou e levantou-se. Deu alguns passos e ficou olhando a borboleta

que entrou na varanda: Já fez a sua lição de casa?

8\(\quad\) Fechei o livro e recuei. Sempre que meu pai queria mudar de assunto ele mudava de lugar: saía da

poltrona e ia para a cadeira de vime. Saía da cadeira

de vime e ia para a rede ou simplesmente começava

a andar. Era o sinal, Não quero falar nisso, chega.

Então a gente falava noutra coisa ou ficava quieta.

9\(\quad\) Tantos anos depois, quando me avisaram lá do

pequeno hotel em Jacareí que ele tinha morrido, fiquei pensando nisso, ah! se quando a morte entrou,

se nesse instante ele tivesse mudado de lugar. Mudar

depressa de lugar e de assunto. Depressa, pai, saia

da cama e fique na cadeira ou vá pra rua e feche a

porta!


TELLES, Lygia Fagundes. Durante aquele estranho chá: perdidos e achados. Rio de Janeiro: Rocco, 2002, p.109-111. Fragmento adaptado.

No texto, as palavras que marcam o sentimento de insegurança vivenciado pela narradora ao conversar com seu pai são:

Alternativas da questão 173518
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