Questão
ID 1662333Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Texto Dissertativo-expositivo
Ano: 2025 Banca: FUNDATEC - Fundação Universidade Empresa de Tecnologia e Ciências Órgão: Prefeitura Municipal de Porto Alegre
De volta às aulas
Por Cláudio Moreno
- Volta fevereiro, e com ele voltam as aulas na maioria dos estados deste imenso Brasil.
- Como de costume, também, começam a chegar as dúvidas escolares, enviadas por pais e mães
- aflitos com o conteúdo que está sendo servido a seus filhos. Fico espantado com a desconfiança
- generalizada que esses pais têm com relação ao conhecimento dos professores, os quais, a julgar
- pelas consultas que recebi, demonstram conhecer muito bem o seu ofício, como o prezado leitor
- poderá avaliar na relação abaixo.
- 1) Auto ou Alto de Natal — “Na lista de livros que deram para meu filho este ano
- consta Auto de Natal, assim, com U, como automóvel. Fui conferir na internet e, como eu
- imaginava, achei Alto de Natal em várias páginas conceituadas do Google. O problema é que
- também tem muitas outras com Auto, mesmo, como a escola escreveu. Afinal, é Alto ou Auto de
- Natal? Obrigada pela atenção”.
- Resposta — Senhora mãe, a escola do teu filho está correta. Os autos eram pecinhas do
- teatro de origem popular, geralmente religiosa, que eram encenadas, na Idade Média, nas
- escadarias da igreja. Em Portugal, Gil Vicente escreveu vários autos famosos, como o Auto da
- Barca do Inferno e o Auto da Índia. No teu caso, é claro que é Auto de Natal. Lembro-te o Auto
- da Compadecida, do Ariano Suassuna, que até minissérie já virou. A confusão entre as duas
- palavras é favorecida pelo som, já que a letra L depois da vogal é lida normalmente como /u/.
- Basta ver Oo erro corriqueiro de escrever piano de *ca...da, quando deveria ser ca...da.
- 2) Plural de Sol? Feminino de Papa — “Minha filha começou a estudar o gênero e o número
- dos substantivos e o professor deu uma lista de exemplos que serão tomados no teste da primeira
- semana de março. Fiquei preocupado com duas coisas: ele dá guarda-sóis como o plural
- de guarda-sol e papisa como o feminino de papa. Mas plural de Sol é possível? Não é só um? E
- desde quando papa tem feminino, se a Igreja Católica não aceita mulheres em seus quadros?”.
- Resposta — Senhor pai, o professor do teu filho está correto. O Sol (nota a maiúscula!),
- nosso astro-rei, é realmente um só, mas o sol (com minúscula), com seus vários significados,
- flexiona normalmente no plural. O Sol é o centro do sistema planetário a que a Terra pertence,
- mas há bilhões de outros sóis, a maior parte deles maiores do que o nosso...
- Afirmar que papa não tem feminino porque jamais uma mulher assumiu o trono de São
- Pedro é o mesmo erro de raciocínio: temos de distinguir o universo real, infinito, do universo da
- linguagem, que é mais extenso ainda, maior que o infinito, pois ela nos permite falar no que
- existe e no que nunca existiu. Precisamos do feminino papisa, quando mais não seja, para poder
- dizer “Nunca houve uma papisa até hoje”, ou “A história da papisa Joana é uma lenda sem
- fundamento”, ou “Já tivemos vários papas, mas nenhuma papisa”.
- 3) Feminino de gafanhoto? — “A professora da minha filha pequena disse em aula que o
- feminino de pato é pata e o de sapo é sapa, mas que só tem formiga e não tem formigo, só
- tem gafanhoto e não tem gafanhota. Eu também fiquei curiosa e fui pesquisar. Todo o mundo
- afirma o mesmo, mas ninguém explica o porquê. Existe alguma razão gramatical que eu não
- estou enxergando? Obrigada”.
- Resposta — Senhora mãe, a gramática não é responsável por isso. Ocorre que uma língua
- (qualquer uma) economiza ao máximo os seus recursos e só vai fazer distinções de gênero que
- sejam importantes para os seus falantes — em outras palavras, ela só vai marcar os dois sexos
- biológicos quando isso tiver alguma importância para a comunidade. Para a criação de animais
- domésticos e de abate, por exemplo, é fundamental distinguir entre machos e fêmeas (o boi,
- a vaca, o touro; a ovelha e o carneiro; o galo e a galinha, e por aí vai a valsa). No entanto (ao
- menos por enquanto) não ganhamos nada em marcar esta distinção no caso da formiga,
- da girafa, do gafanhoto ou da onça. Se for realmente necessário distinguir, recorremos, então,
- ao acréscimo de “macho” ou “fêmea”: a girafa macho, a fêmea do crocodilo, o macho da saracura,
- evitando a criação de formas de raro uso como *o girafo, *a crocodila e *o saracuro.
(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/claudio-moreno/noticia/2024/02/de-volta-as-aulas-clt6ac6b900ag01471iw6smk4 .html - texto adaptado especialmente para esta prova)
Em relação à estruturação do texto-base desta prova, assinale a alternativa correta.