Questão 1655309

Língua Portuguesa · 2016

Questão

ID 1655309

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Anáfora

Ano: 2016 Banca: IBADE - Instituto Brasileiro de Apoio e Desenvolvimento Executivo Órgão: Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde


Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo.

Ruan de Souza Gabriel

01__Existem diversas razões para começar a ler um autor. Há aqueles que lemos porque todo

02 mundo está lendo, como Elena Ferrante e Karl Ove Knausgård. Outros, nós conhecemos por

03 acaso ou indicação e nos transformamos em “leitores inflexíveis, sistemáticos e falhos de

04 imaginação que se obrigam a ler a obra completa de um escritor quando descobrem um do seu

05 agrado”, como descreveu, um pouco invejoso, o escritor português Bruno Vieira Amara em Hoje

06 estarás comigo no paraíso. Nem todo leitor é capaz de tamanha paixão e fidelidade, ainda que

07 só por uns meses. Eu não sou e invejo quem é.

08 __Há também aqueles autores que lemos e relemos quase obrigados pelos tempos, como

09 se buscássemos conselhos: lemos George Orwel quando a treva autoritária voltou a assombrar

10 a política, estamos lendo Albert Camus e todo e qualquer livro que mencione uma epidemia para

11 aprender a viver em quarentena. E há os autores que começamos a ler com o pior dos atrasos,

12 tarde demais para escrever umas frases lamentosas no Twitter quando topamos com o obituário

13 deles.

14 __Toda leitura é interessada. Lemos escritores hypados para não ficar em silêncio quando

15 nossos amigos começam a falar deles, para conferir se valem mesmo ___ pena. Transformamo

16 nos em “leitores inflexíveis, sistemáticos e falhos de imaginação” porque é próprio do amor

17 limitar nossos interesses. E temos lido autores que escreveram sobre autoritarismo e peste

18 porque, talvez desde a Bíblia, debruçamo-nos sobre o que foi escrito no passado para tentar

19 adivinhar o futuro ou tentar impedi-lo de chegar.

20 __E quando lemos um autor recém-falecido, qual é a nossa intenção? Não é descobrir um

21 autor novo, uma vez que depois de ler tantos obituários, já nos familiarizamos com seus temas,

22 decoramos as sinopses de seus principais livros e aprendemos alguns adjetivos para nos

23 referirmos a seu estilo. Lemos para identificar no texto todas as características apontadas pelos

24 obituaristas, como se emprestássemos deles peças de um quebra-cabeça que só quem leu o

25 autor consegue completar?

26 __É complicado ler um autor que acaba de morrer. Primeiro porque há quase uma obrigação

27 de gostar, por respeito ao morto. Também porque os tantos textos lidos sobre o legado do autor

28 contaminam a leitura, que se torna talvez uma experiência menos individual e quase uma tarefa

29 que os atrasados cumprem meio envergonhados e muito reverentes.

30 __Na última quinta (16), depois do anúncio da morte de Garcia-Roza, li, enfim, A última

31 mulher (não tinha nenhum Rubem Fonseca ___ mão). Estava tudo lá, tudo o que eu tinha lido

32 e ouvido nas últimas horas: o introspectivo delegado Espinosa, suas andanças pelo Rio de

33 Janeiro, seu gosto por comida árabe e seus “livros formando uma fileira que cobria toda a

34 extensão da parede e apoiados uns sobre os outros, ocupando de ponta a ponta e do chão até

35 quase o teto toda parede da sala”.

36 __A dedicação ___ pessoas, mais que ao mistério, não é apenas que um testemunho da

37 bondade de Espinosa. Se for verdadeira a tese de Ricardo Piglia, que afirmou que uma das

38 maiores representações modernas da figura do leitor é o detetive, essa dedicação também nos

39 faz imaginar que tipo de tipo de leitor é o delegado.

40__ Ele não parece ser um daqueles que lê desesperadamente, para decifrar sentidos ocultos

41 em cada linha, ou que lê apressadamente, para não ficar fora dos assuntos. Talvez Espinosa

42 seja um desses leitores que fazem da leitura um exercício de empatia, que se envolvem com os

43 personagens e aprendem a amá-los, que não têm interesse em dissecá-los e julgá-los.

44 __Um desses leitores que todos nós que gostamos de ler talvez fomos um dia, antes de

45 aprendermos que podíamos usar nossas leituras para provar nossa inteligência, antes de

46 começarmos a esconder, envergonhados, que a leitura nos emociona como a outros emocionam

47 as novelas. Se todas as leituras são interessadas, essa, que é tão pouco utilitária e até se deixa

48 enganar pelos personagens, talvez seja a menos interesseira.

(Disponível em: https://epoca.globo.com/ruan-de-sousa-gabriel/ – texto adaptado especialmente para

esta prova).



Analise as seguintes frases, retiradas do texto, e assinale a alternativa na qual NÃO haja o emprego de figuras de linguagem.

Alternativas da questão 1655309
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