Questão
ID 1655307Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Pressupostos e Subentendidos
Ano: 2016 Banca: IBADE - Instituto Brasileiro de Apoio e Desenvolvimento Executivo Órgão: Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde
Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo.
Ruan de Souza Gabriel
01__Existem diversas razões para começar a ler um autor. Há aqueles que lemos porque todo
02 mundo está lendo, como Elena Ferrante e Karl Ove Knausgård. Outros, nós conhecemos por
03 acaso ou indicação e nos transformamos em “leitores inflexíveis, sistemáticos e falhos de
04 imaginação que se obrigam a ler a obra completa de um escritor quando descobrem um do seu
05 agrado”, como descreveu, um pouco invejoso, o escritor português Bruno Vieira Amara em Hoje
06 estarás comigo no paraíso. Nem todo leitor é capaz de tamanha paixão e fidelidade, ainda que
07 só por uns meses. Eu não sou e invejo quem é.
08 __Há também aqueles autores que lemos e relemos quase obrigados pelos tempos, como
09 se buscássemos conselhos: lemos George Orwel quando a treva autoritária voltou a assombrar
10 a política, estamos lendo Albert Camus e todo e qualquer livro que mencione uma epidemia para
11 aprender a viver em quarentena. E há os autores que começamos a ler com o pior dos atrasos,
12 tarde demais para escrever umas frases lamentosas no Twitter quando topamos com o obituário
13 deles.
14 __Toda leitura é interessada. Lemos escritores hypados para não ficar em silêncio quando
15 nossos amigos começam a falar deles, para conferir se valem mesmo ___ pena. Transformamo
16 nos em “leitores inflexíveis, sistemáticos e falhos de imaginação” porque é próprio do amor
17 limitar nossos interesses. E temos lido autores que escreveram sobre autoritarismo e peste
18 porque, talvez desde a Bíblia, debruçamo-nos sobre o que foi escrito no passado para tentar
19 adivinhar o futuro ou tentar impedi-lo de chegar.
20 __E quando lemos um autor recém-falecido, qual é a nossa intenção? Não é descobrir um
21 autor novo, uma vez que depois de ler tantos obituários, já nos familiarizamos com seus temas,
22 decoramos as sinopses de seus principais livros e aprendemos alguns adjetivos para nos
23 referirmos a seu estilo. Lemos para identificar no texto todas as características apontadas pelos
24 obituaristas, como se emprestássemos deles peças de um quebra-cabeça que só quem leu o
25 autor consegue completar?
26 __É complicado ler um autor que acaba de morrer. Primeiro porque há quase uma obrigação
27 de gostar, por respeito ao morto. Também porque os tantos textos lidos sobre o legado do autor
28 contaminam a leitura, que se torna talvez uma experiência menos individual e quase uma tarefa
29 que os atrasados cumprem meio envergonhados e muito reverentes.
30 __Na última quinta (16), depois do anúncio da morte de Garcia-Roza, li, enfim, A última
31 mulher (não tinha nenhum Rubem Fonseca ___ mão). Estava tudo lá, tudo o que eu tinha lido
32 e ouvido nas últimas horas: o introspectivo delegado Espinosa, suas andanças pelo Rio de
33 Janeiro, seu gosto por comida árabe e seus “livros formando uma fileira que cobria toda a
34 extensão da parede e apoiados uns sobre os outros, ocupando de ponta a ponta e do chão até
35 quase o teto toda parede da sala”.
36 __A dedicação ___ pessoas, mais que ao mistério, não é apenas que um testemunho da
37 bondade de Espinosa. Se for verdadeira a tese de Ricardo Piglia, que afirmou que uma das
38 maiores representações modernas da figura do leitor é o detetive, essa dedicação também nos
39 faz imaginar que tipo de tipo de leitor é o delegado.
40__ Ele não parece ser um daqueles que lê desesperadamente, para decifrar sentidos ocultos
41 em cada linha, ou que lê apressadamente, para não ficar fora dos assuntos. Talvez Espinosa
42 seja um desses leitores que fazem da leitura um exercício de empatia, que se envolvem com os
43 personagens e aprendem a amá-los, que não têm interesse em dissecá-los e julgá-los.
44 __Um desses leitores que todos nós que gostamos de ler talvez fomos um dia, antes de
45 aprendermos que podíamos usar nossas leituras para provar nossa inteligência, antes de
46 começarmos a esconder, envergonhados, que a leitura nos emociona como a outros emocionam
47 as novelas. Se todas as leituras são interessadas, essa, que é tão pouco utilitária e até se deixa
48 enganar pelos personagens, talvez seja a menos interesseira.
(Disponível em: https://epoca.globo.com/ruan-de-sousa-gabriel/ – texto adaptado especialmente para
esta prova).
Assinale a alternativa que apresenta um substantivo que descreve corretamente a relação do personagem “Espinosa” com a leitura.