Questão 1526167

Língua Portuguesa · 2024

Questão

ID 1526167

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Inferência Textual

Ano: 2024 Banca: NOSSO RUMO - Instituto Nosso Rumo de Educação e Desenvolvimento Social Órgão: Prefeitura Municipal de São Carlos


Leia o texto abaixo, de Ivan Angelo, para responder às questões 4 e 5.

Homem ou mulher?

Quando menino, aos quatro ou cinco anos, vi o pintor da nossa casa vestido de mulher no Carnaval, dançando na rua, e aquilo foi um espanto, uma perturbação, uma maravilha. A ideia de que ele era as duas coisas, homem quando pintava a nossa casa e mulher quando ia para a rua, pairou algum tempo em meu espírito. Imagino que aquele menino o tenha colocado na categoria dos seres e coisas encantados que povoam a infância, por sortilégio de alguma fada ou malefício de alguma bruxa. Como um sapo que vira príncipe ou uma abóbora que vira carruagem.

Quando, mais tarde, pude perceber formas mais complexas de papéis sociais e comportamento sexual, tentei entender por aí aquele mistério da infância. Continuava longe da verdade. Muitos Carnavais que vieram depois e algumas leituras só me deram dados para perceber a constância e a antiguidade daquele gesto, e que ele representava uma transgressão. As explicações pareceram-me sempre mecânicas demais – isso aconteceu por causa daquilo – e não alcançaram a força que o encantamento teve na infância.

Se homem vestido de mulher ou mulher vestida de homem fosse coisa rara, os autores da Bíblia não se teriam preocupado em colocá-la no livro da segunda lei, o Deuteronômio, em 22.5: “A mulher não usará roupa de homem, nem o homem veste peculiar à mulher; porque qualquer que faz tais cousas é abominável ao Senhor”. Para escapar, quem sabe, da abominação os homens comuns refugiaram-se no carnaval das permissões. Saem em bandos e bandas, e até jogam peladas de futebol vestidos de mulher. O momento difícil, imagino, deve ser aquele de sair de casa, sós: os cruciais segundos no elevador, os vizinhos, o reconhecimento na rua, os olhares: seu Josafá, hein, quem diria...

E a primeira vez? Da ideia ao ato haverá alguma insegurança? Talvez não. Vergonha ou timidez não são sentimentos próprios do travestido. Censura, sim, pode contê-lo, mas não para sempre. Revelou-me o dono de um pequeno mercado no Tatuapé, português naturalizado, que este ano vai sair fantasiado de mulher no bloco dos sujos, com grandes peitos de balão. Antes, a patroa segurava-o argumentando que era ridículo, que se desse ao respeito. Ela morrera havia seis meses.

– Agora que estou viúvo vou lá ver como é isso. Sempre quis, porém a dona Antônia opunha-se, metia-me vergonha. Pois vamos ver que graça é que tem.

Foi então que me lembrei do pintor da infância. Ele gostava de cantar enquanto espalhava cores musicais pelas paredes; seu repertório falava de amores traídos e paixões sem remédio. Lembro-me de algumas das canções, que recuperei em discos. Na verdade, recuperava o pintor, em vinil. Uma delas: “Aos pés da Santa Cruz você se ajoelhou e em nome de Jesus um grande amor você jurou, jurou mas não cumpriu, fingiu e me enganou; pra mim você mentiu, pra Deus você pecou...”. Outra dizia: “Não queiras, meu amor, saber da mágoa que sinto quando a relembrar-te estou; atestam-te os meus olhos rasos d’água a dor que a tua ausência me causou”. Ou ainda: “Passaste hoje ao meu lado, vaidosa, de braço dado com outro que te encontrou...”. Minha mãe contou que a mulher dele tinha ido embora com outro e que ele bebia cachaça. Já não sei se ela disse exatamente nessa ordem.

Um dia mamãe falou: vamos ver o Carnaval. Naquela tarde de sol, por entre os carros do corso na avenida ele apareceu, para meu espanto, encantado em mulher. Peruca, batom, olhos e faces pintados, acrescentara uma pinta, levava aberta uma sombrinha de barbatana quebrada e cantava alegre uma música bem diferente daquelas outras: “Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar; dá a chupeta, dá a chupeta pro bebê não chorar”.

Hoje entendo-o melhor, embora eu esteja ainda longe da verdade: ali, como mulher, ele era outro homem.

WERNECK, Humberto (org.). Boa companhia: crônicas. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.



Assinale a alternativa que apresenta como o narrador utiliza as canções do pintor para entender melhor sua experiência de travestimento.

Alternativas da questão 1526167
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