Questão
ID 1516575Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Desinência Número-pessoal
Ano: 2016 Banca: IFCE (CEFET CE) - Instituto Federal do Ceará Órgão: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará
TEXTO 1 – A última crônica (Fernando Sabino)
- A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade, estou
- adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um
- ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo
- de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial,
- ao episódico; nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou
- num incidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar,
- curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último
- poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que
- merecem uma crônica.
- Ao fundo do botequim, um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da
- parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção dos gestos e palavras, deixa-se acentuar pela presença
- de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à
- mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos
- que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam
- para algo mais que matar a fome.
- Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom,
- inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar
- olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do
- homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade
- de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção
- do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
- A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua
- frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa a um discreto
- ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de
- fósforos e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
- São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia de bolo. E, enquanto ela serve
- a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no
- mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada,
- cantando num balbucio, a que os pais se juntam discretos: parabéns pra você...” Depois, a mãe recolhe as velas, torna
- a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher
- está olhando com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre
- os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. De súbito, dá comigo
- a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba
- sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
- Assim eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
O trecho “A filha aguarda também, atenta como um animalzinho”, linha 25, adaptado para o plural, seguindo o padrão culto, fica