Questão 1516574

Língua Portuguesa · 2016

Questão

ID 1516574

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Indicativo

Ano: 2016 Banca: IFCE (CEFET CE) - Instituto Federal do Ceará Órgão: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará


TEXTO 1 – A última crônica (Fernando Sabino)

  1. A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade, estou
  2. adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um
  3. ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo
  4. de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial,
  5. ao episódico; nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou
  6. num incidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar,
  7. curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último
  8. poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que
  9. merecem uma crônica.
  10. Ao fundo do botequim, um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da
  11. parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção dos gestos e palavras, deixa-se acentuar pela presença
  12. de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à
  13. mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos
  14. que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam
  15. para algo mais que matar a fome.
  16. Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom,
  17. inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar
  18. olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do
  19. homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade
  20. de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção
  21. do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
  22. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua
  23. frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa a um discreto
  24. ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de
  25. fósforos e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
  26. São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia de bolo. E, enquanto ela serve
  27. a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no
  28. mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada,
  29. cantando num balbucio, a que os pais se juntam discretos: parabéns pra você...” Depois, a mãe recolhe as velas, torna
  30. a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher
  31. está olhando com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre
  32. os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. De súbito, dá comigo
  33. a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba
  34. sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
  35. Assim eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.



Acerca do uso dos tempos verbais no texto, considere as seguintes afirmativas.

I. A expressão verbal “acaba de sentar-se”, linha 10, está no presente em relação ao momento da enunciação.

II. A forma verbal “Gostaria”, linha 2, revela uma ação futura indeterminada, revelando possibilidade, desejo.

III. No trecho “seu disperso conteúdo humano”, linha 4, o termo sublinhado está sendo usado como forma verbal no tempo presente.

IV. Em “Não sou poeta e estou sem assunto”, linha 8, as duas formas verbais sublinhadas dão ideia de algo permanente, constante, não esporádico.

Estão corretas:

Alternativas da questão 1516574
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