Questão
ID 1469182Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Artigo Definido
Ano: 2007 Banca: FGV - Fundação Getúlio Vargas Órgão: Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação
Texto I
Muito além de Gutenberg
Nos últimos anos, graças a certas ferramentas tecnológicas,
mas especialmente a algumas mudanças de paradigma, os
antigos conceitos de liberdade de informação e propriedade
intelectual estão sendo superados. Em seu lugar, surgem idéias
5 como comunicação compartilhada, inteligência coletiva, fim
da passividade do receptor, direito à intercomunicação. Essas
mudanças têm enormes repercussões em nossa vida social,
econômica, política e simbólica. Estão, por sua vez, relacionadas
a sinais de que uma outra lógica de organização das sociedades
10 – capaz de superar a que está baseada no lucro e na competição
– é possível e necessária.
Um dos problemas-chave a resolver é, precisamente, a
produção de símbolos – arte, comunicação, literatura – num
mundo em que a vida continua sendo comprada e vendida
15 como mercadoria. Em outras palavras: se queremos que as
obras culturais circulem e sejam apropriadas e recriadas por
todos; se queremos fazer de cada ser humano um criador
cultural, como remunerar o trabalho do artista? Como permitir
que, sendo livre seu trabalho, possa ele alimentar-se, vestir-se,
20 habitar, viajar, equipar-se – em suma, satisfazer suas múltiplas
necessidades e desejos?
(...)
No terreno da produção simbólica, o período que vivemos
é marcado por duas tendências contraditórias. Alguns fatores
25 tendem a padronizar os produtos de forma cada vez mais
intensa. Garantir a circulação de um jornal diário em papel,
na escala e nos padrões de “qualidade” requeridos pelo
mercado, exige investimentos de dezenas de milhões de reais.
As produções cinematográficas tradicionais consomem uma
30 parcela cada vez maior de seu orçamento com publicidade.
No entanto, dois fatores combinados têm servido como
uma contratendência formidável, que questiona a própria
idéia de mercantilização da produção simbólica. A primeira
é tecnológica: a internet começou, há vários anos, a erodir a
35 receita da indústria cultural. Primeiro, veio o compartilhamento
de música, sem contrapartida financeira. Depois – e ainda mais
interessante e transformador – surgiram as possibilidades não
apenas de trocar o que já está pronto, mas de criar em conjunto,
a partir de múltiplos pontos do planeta.
40 Esses enormes passos tecnológicos teriam pouco sentido
e efeito se não coincidissem com um profundo mal-estar
em relação aos paradigmas que marcaram a modernidade
– em especial a mercantilização do mundo. Tem crescido – o
Fórum Social Mundial é expressão disso – a consciência de
45 que o mercado, embora surgisse como uma ferramenta de
libertação do ser humano, se não controlado, domina seu
criador. Já não somos o que somos, mas o que compramos.
O mais interessante é que surgem, em paralelo, alternativas.
Afirma-se a lógica dos direitos. Debate-se, nos Fóruns Sociais, a
50 idéia de que certos bens e serviços, necessários para assegurar
vida digna, devem ser oferecidos a todos os seres humanos
do planeta, independentemente de sua capacidade de pagar
por eles. Acesso à terra, água potável, eletricidade, renda
básica da cidadania, saúde de qualidade, educação, internet,
55 bens culturais. A lista vai se refinando, felizmente, e é possível
vislumbrar o dia em que essa lógica se desdobrará no direito
a viajar para ter contato com novas culturas, ou no direito à
psicanálise. Tecnologia é fator secundário. Conhecimento livre
é movido pela busca de nova lógica social e descentramento em
60 oligopólio das narrativas.
É precisamente nesse contexto que surgem o direito à
intercomunicação, a inteligência coletiva, o fim da passividade
do receptor, o conhecimento livre. Graças à tecnologia – mais
especialmente à busca de um mundo organizado segundo
65 uma nova lógica social –, está se esfacelando um dos grandes
instrumentos de dominação da era capitalista: o oligopólio das
narrativas e discursos. Embora partidária do neoliberalismo, a
revista Economist apontou, num estudo publicado em meados
de 2006, que está se encerrando a era da comunicação
70 de massa. Iniciada com a invenção dos tipos móveis, por
Gutenberg, ela foi marcada pela produção de um volume cada
vez mais maciço de bens simbólicos, por um número cada vez
mais reduzido de emissores. Em seu lugar, está surgindo a era
da comunicação pessoal e participativa. Sua marca será o poder
75 que uma parcela cada vez maior da humanidade terá para se
livrar da condição de mero consumidor e tornar-se, também,
produtor de bens simbólicos. As transformações serão tão
profundas que Economist chega a prever o fim do jornal diário
impresso, ainda na primeira metade do século atual.
80 A mudança de paradigma, extremamente positiva, cria dois
problemas complexos. O primeiro é a necessidade de recriar
espaços públicos de debate, para evitar que a multiplicação
dos produtores de conteúdo gere apenas um caos multifônico.
O fato de cada ser humano ser um produtor de narrativas e
85 discursos não deve significar que cada um se satisfaça consigo
mesmo e dispense o diálogo. Nesse caso, estaríamos diante de
uma nova forma de incomunicação e alienação.
(...)
(Antonio Martins. In: Le Monde Diplomatique Brasil, outubro de 2007)"A primeira é tecnológica: a internet começou, há vários anos, a erodir a receita da indústria cultural." (L.33-35) No trecho acima, é correto afirmar que estão presentes: