Questão
ID 1462286Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Inferência Textual
Ano: 2019 Banca: FUNDEP Gestão de Concursos Órgão: Prefeitura Municipal de Nova Serrana
INSTRUÇÃO: Leia o texto a seguir para responder às questões de 1 a 4.
Por uma representatividade que contemple a vida comum
Ao receber o seu Emmy por Melhor Atriz em Série Dramática em 2015, Viola Davis ocupou o palco da premiação com uma postura e um discurso que trouxeram pontos muito pertinentes à discussão do peso da representatividade do povo negro dentro do entretenimento.
Além de ter sido a primeira mulher negra a receber a estatueta – e até o momento, a única –, Viola ressaltou a necessidade de papéis que consigam ir além dos nichos de debates raciais e que coloquem pessoas negras em situações mundanas, cotidianas, como vemos qualquer ator branco facilmente ocupar. Como se não fosse suficiente abrir seu discurso com a citação da lendária ativista do movimento abolicionista dos Estados Unidos, Harriet Tubman, e suas missões de libertação de escravos pela Underground Railroad, com a frase “não tem como ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem”, um questionamento tanto para a indústria marketeira quanto para a do show business é colocado em pauta: como assim, mas que papéis são esses?
Afinal, em 2014, 12 anos de escravidão levou o Oscar, filme monstro. Dois anos antes, a própria Viola estourava em Histórias cruzadas ao lado de outra gigante da atuação e negra retinta, Octavia Davis. Como assim não existem papéis?
Sim, eles existem. Nos filmes sobre escravidão. Nos filmes sobre o movimento dos Direitos Civis, sobre os movimentos de resistência como o recente esnobado pela Academia, Infiltrado na Klan. O que, veja bem, é ótimo e é, acima de tudo, necessário, afinal, não podemos jamais nos dar ao luxo de cairmos no esquecimento em relação a todos estes momentos da história e ao peso deles em nosso momento atual. Mas, honestamente, é inevitável sentir falta de algo a mais às vezes. Porque o negro também vai ao mercado, também trabalha em escritório, paga conta e consome de tudo um pouco. Então, se enxergar somente nos dramas sobre a escravidão e derivados já não é mais suficiente. Se ele faz parte do mundo, que este mundo o abrace também com o mesmo afago que fez com o branco desde sempre. Coloque-o nas propagandas sem graça, nos panfletos de merchandising, nos filmes blockbusters feitos só para entreter.
O princípio aqui me remete ao dilema do ensino da história negra nas escolas: aprendemos sobre a escravidão, o quão terrível ela foi e, deste modo, somos condicionados a enxergar o povo de forma reduzida e empobrecida. Um povo cuja única identidade remete ao sofrimento e nada mais, o que é bem distante da realidade. Não aprendemos sobre a história africana sem a interferência do homem branco, sobre a riqueza de suas inúmeras culturas, seus reinos e a ancestralidade de cada povo, o que é extremamente limitante. A criança negra cresce se enxergando como fruto daquele sofrimento e, ao longo de sua vida, dificilmente tem referências que tragam um outro ponto de vista.
[...]
É um dever da indústria com a própria autoestima do povo preto para que este se enxergue como além do resultado de injustiças históricas tremendas e desumanizações. Para que ele se enxergue como um cara ou uma mina como qualquer outro, tão rico e complexo quanto possível, tão passível de características diversas como as que normalmente associamos às figuras-padrão de protagonismo. Para que ele percorra os caminhos que o branco já conhece sem causar espanto quando aparecer na televisão, assim, despretensiosamente. Livre de amarras e pronto para conquistar o mundo exibindo sua pele, não como um escudo pronto para a briga, mas sim, como vestes que esbanjam orgulho de ocupar os lugares que sempre lhe foram de direito.
Disponível em:<https://www.geledes.org.br/por-uma-representatividade-que-contemple-a-vida-comum/> . Acesso em: 24 jul. 2019 (Adaptação).
Releia o trecho a seguir.
“Livre de amarras e pronto para conquistar o mundo exibindo sua pele, não como um escudo pronto para a briga, mas sim, como vestes que esbanjam orgulho de ocupar os lugares que sempre lhe foram de direito.”
A metáfora presente nesse trecho corrobora a ideia presente em: