Questão 1462282

Língua Portuguesa · 2019

Questão

ID 1462282

Disciplina: Língua Portuguesa

Assunto: Pós-verdade

Ano: 2019 Banca: FUNDEP Gestão de Concursos Órgão: Prefeitura Municipal de Nova Serrana


INSTRUÇÃO: Leia o texto a seguir para responder às questões de 5 a 7.

Duas interpretações para a era da pós-verdade

Notícias falsas e pós-verdade são expressões que todos encontramos a cada esquina (virtual, na maior parte das vezes). Não há quem não se diga alarmado com esses fenômenos, definidos como a dissolução dos indicadores tradicionais de credibilidade e veracidade (fake news) e o do aparente desinteresse das pessoas em separar mentira de verdade da hora de tomar decisões, por exemplo, sobre saúde ou política (“pós-verdade”).

De fato, com tanta gente se declarando preocupada, ciente e alerta para ambos os problemas, é surpreendente que eles ainda sejam problemas. Mas, claro, a vítima crédula e fanática da mentira, da indiferença aos fatos e da desinformação é sempre alguma outra pessoa.

À medida que cresce o alarme, cresce o número de tentativas de entender ambos os fenômenos, que muitas vezes andam mesmo de mãos dadas.

Em 2017, com o mundo – ou, ao menos, a parte que se considera racional e bem-pensante – atordoado pelos fenômenos Donald Trump e Brexit, o jornalista britânico James Ball publicou uma mistura de livro-reportagem e análise ensaística, Post-Truth: How Bullshit Conquered the World [...], que, até onde sei, segue sem versão em português. Um ano depois, a crítica literária americana Michiko Kakutani lançou A morte da verdade, rapidamente traduzido para o público brasileiro pela Intrínseca.

As duas obras cobrem algum terreno comum, mas são bem diferentes. O livro de Kakutani mistura vários conceitos. A autora aborda uma história intelectual do desapego à verdade e da legitimação do discurso de ódio como arma política, e soma a isso a uma revisão do noticiário recente sobre a influência russa nas eleições presidenciais americanas e as investigações a respeito das “fazendas de trolls” mantidas pelo Estado russo para disseminar desinformação, tanto internamente quanto no Ocidente.

Kakutani recua até um panfleto publicado por Lênin, em 1907, em que o revolucionário russo prega que, quando o objetivo é disputar o apoio das massas com um adversário, a linguagem deve ser usada “não para corrigir os erros do oponente, mas para destruí-lo e varrer sua organização da face da Terra. A escolha de palavras é de natureza tal que evoca os piores pensamentos, as piores suspeitas a respeito do oponente e, de fato, em contraste com as palavras que convencem e corrigem, ‘leva confusão às fileiras do proletariado’”. Ela então lembra que Steve Bannon, até pouco tempo atrás o guru de Donald Trump, já havia se definido como “leninista”.

Ela também dedica boa parte do livro a discutir a influência do pensamento pós-moderno – com sua “desconfiança das Grandes Narrativas”, a visão de “instabilidade do real” e o olhar irônico para o mundo – na disseminação do conceito de que todos os pontos de vista são “igualmente válidos”, logo “a minha verdade é tão verdadeira quanto a sua”.

[...]

Sendo uma crítica literária, Kakutani mantém uma postura um tanto quanto ambígua em relação ao pósmodernismo. Reconhece o valor do movimento para as artes e a literatura, e afirma que seu poder corrosivo foi importante para dissolver certos hábitos mentais autoritários e arrogantes que predominavam nos anos 50, abrindo espaço para vozes diversas. Mas afirma que se trata de uma corrosão, no fim, estéril, que no limite, trata qualquer tentativa de estabelecer o significado real das palavras, ou a verdade dos fatos, como esforço ingênuo e inútil.

E isso, ela afirma, é água para o moinho dos autoritarismos: citando George Orwell e Hannah Arendt, a autora aponta que o que interessa aos autocratas, mais do que convencer o povo a crer na mentira, é criar uma sensação de cansaço, um senso de futilidade e indiferença frente à verdade. Se convicção na ausência de ironia fanatiza, ironia na ausência de convicções paralisa.

[...]

Disponível em:<http://revistaquestaodeciencia.com.br/resenha/2019/05/26/duas-interpretacoes-para-o-mundo-na-pos-verdade> . Acesso em: 31 jul. 2019.



O texto, ao citar as ideias de Michiko Katutani, estabelece uma relação entre a pós-verdade e o pós-modernismo.

Essa relação está corretamente expressa em:

Alternativas da questão 1462282
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