Questão
ID 1425184Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Inferência Textual
Ano: 2002 Banca: UFF - Universidade Federal Fluminense Órgão: Universidade Federal Fluminense
Texto I
Nada a Ver
Nunca entendi muito bem por que os pássaros são considerados símbolos de
despreocupação, liberdade e alegria de viver. Não conheço um passarinho que não seja
nervoso, que não viva com um ar de pânico permanente. Aquele ar de quem está sempre
esperando o pior. É ou não é? Ainda estou para ver um passarinho saboreando o que come,
5 ou estirado em algum galho, barriga para cima, pegando um solzinho. Passarinho está
sempre ocupado, sempre preocupado, e sempre de passagem para outro lugar. Deve ser o
bicho mais estressado que existe. Nada compensa essa agitação permanente — nem a
capacidade de voar, que deve lhe trazer outras angústias. Condições meteorológicas, planos
de navegação etc. Aposto que qualquer passarinho trocaria suas asas por uma vida
10 pachorrenta de leão, ou até de minhoca. Tudo só para poder relaxar um pouco.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Nada a ver. O Globo, Rio de Janeiro, 7 abr. 2002.
Texto II
EM LUTA CONTRA A MÁQUINA
Se você já atirou um telefone pela janela ou esmurrou um
computador, cuidado. Isso pode ser tecnostress
Qualquer pessoa se irrita quando o celular cai na caixa postal, o computador dá pane e
o manual de instruções do DVD não resolve o problema. Se essa irritação lhe provoca uma
explosão de raiva, você é mais uma vítima de tecnostress. Essa variedade de stress resulta da
dificuldade em aceitar as imperfeições da tecnologia ou conviver com ela. “Há uma
5 verdadeira veneração pela máquina, e, quando ela falha, pode haver uma reação além do
razoável”, adverte a psicóloga Marilda Lipp, do Centro Psicológico de Controle do Stress de
São Paulo. “Mas é preciso não esquecer que nem sempre a tecnologia funciona.”
Os tecnoestressados típicos são pessoas que, mesmo sem fome nem compromisso
posterior, escolhem o prato no restaurante pelo tempo de preparo, não pelo sabor. A maioria
10 das pessoas que sofrem do mal tem mais de 45 anos e é do sexo masculino. “Na prática, as
mulheres aceitam mais facilmente que não sabem algo e pedem ajuda”, diz Marilda Lipp. Os
homens, sobretudo os mais velhos, temem parecer obsoletos quando não sabem mexer em
algumas máquinas. Esses costumam procurar os consultórios depois de um ataque explosivo
sério — como uma descarga de socos na tela do computador diante da mensagem “Este
15 programa executou uma operação ilegal e será fechado”. Há quem jogue o celular pela janela
ao notar que não está dando sinal ou quando o outro não atende a uma chamada. “Isso é
mais comum do que se imagina”, afirma o psiquiatra César Romero, dono de uma clínica de
psicoterapia de Salvador.
O tratamento é a terapia ou, em casos extremos, o uso de antidepressivos. No limite, a
20 vítima tem sudorese, náusea, vômito e diarréia, em um quadro diagnosticado como
transtorno obsessivo-compulsivo. O terapeuta tenta mostrar ao paciente que a tecnologia
anda a passos rápidos e não é possível dominá-la por completo. Toma-se especial cuidado
em não criar na pessoa outro sentimento igualmente prejudicial: a tecnofobia — aversão à tecnologia.
NEGREIROS, Adriana. Em luta contra a máquina. Veja, Rio de Janeiro, 9 jan. 2002.
Pode-se afirmar em relação aos textos I e II