Questão
ID 1365666Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Conclusão Não Decorrente
Ano: 2012 Banca: FCC - Fundação Carlos Chagas Órgão: Tribunal Regional Federal da 2ª Região
Atenção: As questões de números 41 a 43 referem-se ao texto que segue.
1 Em "Antropologia do Ponto de Vista Pragmático", o filósofo Immanuel Kant apresenta suas considerações a respeito
do caráter dos povos. Lá encontramos páginas sobre os ingleses, alemães, franceses, espanhóis, turcos, entre outras
nacionalidades.
Mas há nisso tudo um detalhe intrigante. Kant nunca saíra de sua cidade, Köninsberg (hoje, Kaliningrado). Não por
5 outra razão, as tais páginas são um conjunto bisonho de lugares-comuns.
Esta pequena anedota diz muito a respeito de uma certa maneira de pensar que consiste em acreditar que a
experiência nunca fornecerá nada capaz de reorientar uma ideia clara. O acesso à experiência acumulada em livros e relatos já
forneceria o embate necessário para nos orientarmos no pensamento.
Qualquer coisa que eu, enquanto particularidade, experimente seria parcial, limitado e restrito a um contexto. Por essa
10 razão, seu valor seria muito frágil.
Quase 200 anos depois, outro filósofo, Michel Foucault, resolveu fazer um caminho inverso. "Há muitos aconte-
cimentos do mundo que forçam o pensamento a se reorientar", dirá Foucault. "Devemos ir lá onde tais acontecimentos estão."
E com tal ideia na cabeça, o filósofo francês foi ao Irã acompanhar de perto a revolução que acabou por levar o aiatolá
Khomeini ao poder. Vários artigos seus sobre tal processo apareceram no jornal "Corriere dela Sera".
15 As análises de Foucault não passaram à posteridade como o melhor exemplo de acuidade. De fato, ele compreendeu
posteriormente os riscos nos quais a revolução tinha entrado, mas espera-se de um filósofo que ele consiga apreender os
riscos antes deles estarem evidentes a todos.
Se a força da ideia, assim como a crença de que não há nada de novo sob o sol, pode nos cegar, o mesmo vale para
o entusiasmo pelo acontecimento.
20 Entre estes dois polos, encontramos uma peculiar afirmação feita por um terceiro filósofo, Theodor Adorno. Logo após
a audição de uma peça de John Cage, "Concerto para Piano", Adorno volta para casa e escreve: "Eu não sei exatamente o
que pensar".
Diante de um acontecimento tal como a obra de Cage, Adorno reconhecia que o melhor a fazer era dizer: "Eu não sei
o que isto significa, só sei que precisarei de tempo para o pensamento voltar a se orientar". Abdicar deste tempo devido ao
25 medo diante da angústia da indecisão seria o pior de todos os erros.
Este é o erro que cometemos com mais facilidade. Ele é o que mais fere. Às vezes, a indecisão prolongada é o tempo
que o pensamento exige para se reconstruir diante dos acontecimentos.
(Wladimir Safatle. "Ideias e acontecimentos". Folha de S. Paulo, opinião, 3/1/2012, p.2)
Considerando o modo como estão articuladas as ideias no texto, o segmento que se constitui como conclusão é: