Questão
ID 1306767Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Dois-pontos
Ano: 2014 Banca: FCC - Fundação Carlos Chagas Órgão: Tribunal Regional do Trabalho da 13ª Região
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 7, considere o texto abaixo.
1 Hoje, aos 88 anos, o sociólogo polonês Zygmunt
Bauman é considerado um dos pensadores mais eminentes
do declínio da civilização. Bauman é autor do conceito
de “modernidade líquida”. Com a ideia de “liquidez”,
5 ele tenta explicar a Luís A. Giron as mudanças profundas
que a civilização vem sofrendo com a globalização e o
impacto da tecnologia da informação.
L.A.G. − De acordo com sua análise, as pessoas
vivem um senso de desorientação. Perdemos a fé em
10 nós mesmos?
Zygmunt Bauman − Ainda que a proclamação do “fim da
história” de Francis Fukuyama não faça sentido, podemos
falar legitimamente do “fim do futuro”. Durante toda a
era moderna, nossos ancestrais avaliaram a virtude de
15 suas realizações pela crescente (genuína ou suposta)
proximidade de uma linha final, o modelo da sociedade
que queriam estabelecer. A visão do futuro guiava o presente.
Nossos contemporâneos vivem sem esse futuro,
de modo que estamos mais descuidados, ignorantes e
20 negligentes quanto ao que virá. Fomos repelidos pelos
atalhos do dia de hoje.
L.A.G. − As redes sociais aumentaram sua força na
internet como ferramentas eficazes de mobilização.
Como o senhor analisa o surgimento de uma sociedade
25 em rede?
Bauman − As redes sociais eram atividades de difícil implementação
entre as comunidades do passado. De algum
modo, elas continuam assim dentro do mundo
off-line. No mundo interligado, porém, as interações sociais
30 ganharam a aparência de brinquedo de crianças
rápidas. Não parece haver esforço na parcela on-line, virtual,
de nossa experiência de vida. Hoje, assistimos à
tendência de adaptar nossas interações na vida real
(off-line), como se imitássemos o padrão de conforto que
35 experimentamos quando estamos no mundo on-line da
internet.
L.A.G. − Como o senhor vê a nova onda de protestos
no Oriente Médio, nos Estados Unidos e na América
Latina, que aumentou nos últimos anos?
40 Bauman − Se Marx e Engels escrevessem o Manifesto
Comunista hoje, teriam de substituir a célebre frase inicial
– “Um espectro ronda a Europa − o espectro do
comunismo” − pela seguinte: “Um espectro ronda o
planeta − o espectro da indignação”. Esse novo espectro
45 comprova a novidade de nossa situação em relação ao
ano de 1848, quando Marx e Engels publicaram o Manifesto.
Faltam-nos precedentes históricos para aprender
com os protestos de massa e seguir adiante. Ainda
estamos tateando no escuro.
50 L.A.G. − O senhor afirma que as elites adotaram uma
atitude de máximo de tolerância com o mínimo de
seletividade. Qual a razão dessa atitude?
Bauman − Em relação ao domínio das escolhas culturais,
a resposta é que não há mais autoconfiança quanto ao
55 valor intrínseco das ofertas culturais disponíveis. Ao mesmo
tempo, as elites renunciaram às ambições passadas
de empreender uma missão iluminadora da cultura. Hoje,
as elites medem sua superioridade cultural pela capacidade
de devorar tudo.
60 L.A.G. − Como diz o crítico George Steiner, os
produtos culturais hoje visam ao máximo impacto e à
obsolescência instantânea. Há uma saída para salvar
a arte como uma experiência humana importante?
Bauman − Esses produtos se comportam como o resto
65 do mercado. Voltam-se para as vendas na sociedade dos
consumidores. Uma vez que a busca pelo lucro continua
a ser o motor mais importante da economia, há pouca
oportunidade para que os objetos de arte cessem de
obedecer à sentença de Steiner.
70 L.A.G. − Seus livros parecem pessimistas, talvez
porque abram demais os olhos dos leitores. O senhor
é pessimista?
Bauman − A meu ver, os otimistas acreditam que este
mundo é o melhor possível, ao passo que os pessimistas
75 suspeitam que os otimistas podem estar certos... Mas
acredito que essa classificação binária de atitudes não é
exaustiva. Existe uma terceira categoria: pessoas com
esperança. Eu me coloco nessa terceira categoria.
(Adaptado da entrevista de: GIRON, Luís Antônio, publicada na
revista Época. 19/02/2014. Disponível em http://epoca.globo.com)
Considerando-se o contexto, é correto afirmar: