Questão
ID 12354Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Classes Morfológicas da Palavra "Que"
Ano: 2022 Banca: IDECAN - Instituto de Desenvolvimento Educacional, Cultural e Assistencial Nacional Órgão: Universidade Federal da Bahia
O racismo é um fantasma da escravidão que ainda assombra o povo brasileiro
O racismo ainda é algo muito difuso em nosso país, sobretudo entre as classes dominantes. Alguém por aí irá dizer que
já se passaram 134 anos da abolição da escravatura no Brasil e que tudo o que estou falando não passa de "mimimi", mas a
verdade verdadeira dos fatos nos leva a crer que a questão é muito mais séria do que imaginamos.
Eu sou de opinião que, enquanto os meios de produção, os grandes conglomerados comerciais, os meios de comunicação,
como os jornais e a televisão, os centros de formação profissional, sobretudo tecnológicos, as universidades – sejam públicas ou
privadas –, o comando do país, seja pelo Legislativo, seja pelo Executivo, estiverem nas mãos apenas de pessoas brancas, como
ocorre hoje, jamais teremos uma solução plausível sobre a questão racial entre nós.
A política demonstra enormemente tudo o que estou dizendo. O horário eleitoral, as plataformas dos partidos, a maciça
bancada de deputados federais e estaduais, eleita em cada legislatura – incluindo as câmaras de vereadores –, tudo isso nos dá
uma excelente ideia do país que habitamos.
Dois livros me trouxeram essa reflexão, e certa inquietação, assim que eu terminei de lê-los. Falo de "Pacto da
Branquitude", da psicóloga e ativista Cida Bento, colunista desta Folha, e de "A Sociedade Desigual – Racismo e Branquitude na
Formação do Brasil", do economista Mário Theodoro.
Esses dois livros deveriam servir de manuais de aprendizado do bom viver em comunidade, sobretudo no trato com
pessoas negras – ou seja, pretas e pardas, de acordo com as normas do IBGE.
A branquitude é um projeto de controle social, mas no sentido de demarcar acessos e barreiras para determinados grupos.
Isso não acontece de agora. É secular – desenvolvida como política de Estado ainda no Império. Desconstrói tecnologias, religião,
cultura e saberes da população preta, sobretudo a escravizada, tendo como filosofia o eugenismo e a sua coisificação desse ser
antes visto como mercadoria.
O livro de Cida Bento – eleita em 2015, pela revista The Economist, do Reino Unido, uma das 50 personalidades mais
influentes do mundo no campo da diversidade – nos remete a pensar a branquitude como uma prática que silencia e apaga, ao
mesmo tempo em que demarca território, com certa sutileza e malícia. Ela diz, com muito acerto: "É evidente que os brancos não
promovem reuniões secretas às cinco da manhã para definir como vão manter seus privilégios e excluir os negros. Mas é como se
assim fosse."
É intrigante pensar o quanto a prática, no nosso dia a dia, diz respeito às ações tão presentes nas agressões e ofensas
dos corpos negros – toda vez em que abrimos o jornal ou assistimos ao noticiário da televisão.
Desde os tempos imemoriais, do Império à Proclamação da República, corpos negros servem de referência a confirmar a
supremacia branca, sobretudo dentro da prática do poder. Como bem referido por Cida Bento, Luiz Gama, grande abolicionista,
chegou a chamar esses dominadores de "insaciáveis parasitas do trabalho africano". Para o baiano, o tributo que os brancos
deviam aos negros, durante três séculos de exploração de sua mão de obra, seria equivalente a R$ 1 trilhão, se calculados nos
dias de hoje.
Mário Theodoro vai pelo mesmo caminho. O seu "A Sociedade Desigual" mapeia o cenário aterrador que "destaca a etapa
do crescimento econômico dos anos 1930-1970", o qual consolida "uma classe média, majoritariamente, branca".
Como base de construção do país, o racismo segue praticamente desafiador, perpetuando desigualdades e "impedindo
mudanças estruturais", enquanto a sociedade brasileira, em face do racismo, se mantém "violenta, autoritária, elitista e medíocre".
Para o autor, a desigualdade se relaciona bem, desde o passado, com espaços como quilombos, favelas, alagados,
mocambos e, hoje, com comunidades, periferias e palafitas.
Enquanto não for assertivo o tratamento sobre os males do racismo no Brasil, não haverá avanço, pois as crenças
persistem em encarar o negro brasileiro como cidadão de segunda classe, sem plenos direitos.
Encarar o racismo como uma ideologia pode ser um dos passos para o Brasil se refletir como racista e violento. É parte
da cura.
Os livros de Cida Bento e Mário Theodoro têm tudo para se tornar clássicos muito necessários pela profundidade com que
abordam uma temática fantasma da escravidão que ainda assombra a todos nós, brancos e negros.
(Tom Farias. Jornalista e escritor, é autor de “Carolina, uma Biografia” e do romance “'A Bolha”. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tom-farias/2022/09/o-racismo-e-umfantasma-da-escravidao-que-ainda-assombra-o-povo-brasileiro.shtml. 8.set.2022)
Com relação aos aspectos linguísticos do texto, julgue o item a seguir:
Em “...ao mesmo tempo em que demarca território, com certa sutileza e malícia...” (linhas 21 e 22), o QUE se classifica como pronome relativo e exerce função sintática de adjunto adverbial.