Questão
ID 1235015Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Texto Dissertativo-expositivo
Ano: 2014 Banca: CESPE CEBRASPE - Centro de Seleção e de Promoção de Eventos UnB Órgão: Tribunal de Contas do Estado da Paraíba
Texto para as questões de 4 a 6
1 Às vezes, eu sinto a angústia de um menino perdido
numa multidão. Vivemos hoje no Brasil um período inusitado
de estabilidade política permeada pelas superimposições
4 promovidas pelo casamento entre hierarquias aristocráticas ―
que, em todas as sociedades (e sobretudo na escravidão, como
percebeu o seu teórico mais sensível, Joaquim Nabuco), têm
7 como base a amizade e a simpatia pessoal ― e pelo
individualismo moderno relativamente igualitário, que
demanda burocracia e, com ela, uma impecável, abrangente e
10 inatingível impessoalidade.
O hibridismo resultante pode ser negativo ou positivo.
Pelo que capturo, o hibridismo é sempre mal visto porque ele
13 não cabe no modo ocidental de pensar. Provam isso as
Cruzadas, a Inquisição, o Puritanismo, as Guerras Mundiais, o
Holocausto e a exagerada ênfase na purificação e na eugenia ―
16 na coerência absoluta entre gente, terra, língua e costumes,
típicas do eurocentrismo. A mistura corre do lado errado e
tende a derrapar como um carro dirigido por jovens bêbados
19 quando saem da balada.
Como gostamos de brincar com fogo, estamos sempre
a um passo da legitimação da violência, justificada como a voz
22 dos oprimidos que ainda não aprenderam a se manifestar
corretamente. E como fazê-lo se jamais tivemos um ensino
efetivamente igualitário ou instrumental para o igualitarismo
25 numa sociedade cunhada pelo escravismo e por uma ética de
condescendência pelos amigos e conhecidos?
Pressinto uma enorme violência no nosso sistema de
28 vida. Temo que ela venha a ocupar um território ainda mais
denso e seja usada para legitimar outras violências tanto ou
mais brutais do que o quebra-quebra hoje redefinido como
31 “manifestações”, protestos que começam como demandas
legítimas e, infiltrados, tornam-se quebra-quebras. Qual é o
lado a ser tomado se ambos são legítimos e, como é óbvio,
34 dizem alguma coisa como tudo o que é humano?
Estou, pois, um tanto perdido e um tanto achado nessa
encruzilhada entre demandas legais e prestígios pessoais. Entre
37 patrimonialismo carismático e burocracia, os quais sustentam
o “Você sabe com quem está falando?” ― esse padrinho do
“comigo é diferente”, “cada caso é um caso”, “ele é meu
40 amigo”, “você está errado mas eu continuo te amando”... E por
aí vai numa sequência que o leitor pode inferir, deferir ou
embargar.
Roberto da Mata. Achados e perdidos. In: O Estado de S.Paulo, São Paulo, 23/10/2013 (com adaptações).
O texto de Roberto da Mata é