Questão
ID 1099204Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Onomatopeia
Ano: 2019 Banca: FUNDATEC - Fundação Universidade Empresa de Tecnologia e Ciências Órgão: Prefeitura Municipal de Viamão
Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.
Nina Horta, a amizade que não tive
- ____Que seja, agora, o início.
- ____Olhávamos para trás, em espiadas e recolhidas rápidas, sucedidas por acessos de riso.
- Um esticava o pescoço pelo corredor, outro espiava ajoelhado por cima da poltrona, como numa
- trincheira. Era o Pelé, e estava ___ bordo.
- ____Tinha, quem sabe, uns 9 anos de idade e a distância do voo era longa demais para
- segurarmos por tanto tempo um pedido de autógrafo. Depois de um longo debate, meus irmãos
- tomaram coragem. Não conseguiria e teimei que não queria.
- ____Foram arrastando os pezinhos, como quem tem medo de se arrepender, e eu não
- conseguia sequer assistir.
- ____Então vem minha irmã com um sorriso sapeca e diz: pedi pra você também. Surpresa,
- notei que minha foto tinha a dedicatória mais linda, e ainda um coração exclusivo, que tomei
- como prêmio pela timidez.
- ____Não vim com esse gene, o da tietagem. Meus heróis sempre foram privados e os celebrava
- do meu jeito, sem forçar a entrada. Ou quase...
- ____Um dia, em 2012, tomei coragem e pedi amizade a Nina Horta, no Facebook e... ela
- aceitou. Foi a maior ousadia que já fiz, seguida da vergonha tenebrosa de achar que havia
- cruzado uma fronteira proibida, pela qual seria julgada. Levei séculos para comentar um post.
- Eram os passinhos hesitantes dos meus irmãos em direção a Pelé.
- ____Não, não fui “amiga” de Nina. Nem me permiti. Como alcançar __quilo tudo, tão
- completo? Sovava cultura e filosofia na crônica, entre receita e outra, sem causar indigestão.
- Aquela coisa de gênios, que nos explicam a vida como se tivéssemos 6 anos de idade.
- ____Seus textos descartavam o mundaréu de informações irrelevantes, de afetações ridículas
- da gastronomia de hoje e assentavam no essencial: no sabor sem blá-blá-blá, na receita com
- resultado feliz, no momento de coisas, cheiros, texturas, gulodices e pequenas alegrias. Nunca
- elevou a gastronomia a um plano celeste, talvez porque — imensa que era — a mirasse lá das
- alturas.
- ____Ao longo desses anos, recebi muitas palavras carinhosas de Nina, que nem cabe contar.
- Não era amizade, mas generosidade, e me bastava que reconhecesse minha existência.
- ____Encontramo-nos finalmente só no ano passado — depois de anos de troca de pequenas
- mensagens, casos contados ___ distância e meu excesso de cerimônia — numa noite perfeita
- na sala de sua casa, que se expandiu para acomodar os gigantes: Luiz e Nina, os Hortas. De
- estilos tão diferentes e parentesco só no talento, sempre vibraram no mesmo tom e fizeram
- menos do dom. Luiz, com o melhor texto de vinhos do planeta, e Nina, com o de comida. E o
- assunto os encontrou por acaso, porque tenho absoluta certeza de que, se decidissem escrever
- sobre próteses dentárias, haveria fila na sala de espera.
- ____Na semana passada, vi um grupo de adolescentes, incluindo minha filha, dar chiliques e
- faniquitos, gritando o nome dos Black Eyed Peas. Sorte delas, que externam tudo. Eu fico aqui
- entalada, com todos os elogios que devia ter feito, com abraços contidos em camisa de força PP,
- com as perguntas que travei, mordendo a língua.
- ____Só me resta aproveitar a camisa de força imaginária e assumir de vez a loucura,
- conversando com a Nina da minha cabeça, animadamente e sem reservas, em grandes papos
- de anjo.
Cristiana Beltrão – Revista Época – 13/10/2019 – Disponível em época.globo.com - adaptação
Na linha 23, a expressão “blá-blá-blá” pode ser classificada como uma figura de linguagem. Assinale a alternativa que apresenta o nome correto dessa figura.