Questão
ID 107514Disciplina: Língua Portuguesa
Assuntos: Grau Aumentativo Sintético, Oxítonas, Paroxítonas, Proparoxítonas, Sinônimos, Travessão
Ano: 2025 Banca: Legalle Concursos Órgão: Prefeitura Municipal de Vacaria
Para responder às questões 01 a 10, leia o texto abaixo.
O diminutivo cruel "gentinha" estigmatizou meio mundo
1 \(\quad\) Também achei divertido o recente lançamento de 2 Tati Bernardi, "A Boba da Corte", mas é desonesto 3 resumi-lo apenas a isso. O livro é um retrato tocante 4 da distinção de classe e abala os leitores que têm um 5 músculo batendo dentro do tórax. A gente se 6 reconhece o tempo todo, seja se colocando no lugar 7 da Tati, seja assumindo os outros lugares da mesa em 8 que ela instala a elite intelectual e social brasileira. 9 \(\quad\) Enquanto eu avançava na leitura, lembrei de uma 10 palavra que, quando criança, escutava com frequência 11 em rodas de adultos. Era um diminutivo cruel usado 12 sem parcimônia. Como se fossem aristocratas de 13 novela, ninguém se inibia de classificar como "gentinha" 14 a pessoa — preferencialmente um jovem — que 15 revelasse indícios de habitar a parte inferior da maldita 16 pirâmide. E esses indícios podiam ser abundantes: 17 \(\quad\) o bairro periférico onde a colega de aula morava; 18 a profissão do pai do namorado: se não é doutor, faz 19 o quê?; o forte sotaque de quem chegava do interior; 20 o tom da pele, claro; andar de ônibus, saltar na 21 parada; ser sócio de um clube fuleiro; ter um nome 22 americanizado, de estrela de cinema: a bandeira 23 indiscutível de que a pessoa não era bem-nascida. 24 \(\quad\) O que era ser bem-nascida? Era fazer parte do 25 "nós" e não do "eles". Ser João e não Michael. Mas um 26 João com pedigree. Ser filho de um conhecido da 27 família, ser neto de alguém cujo nome estaria numa 28 placa de bronze em alguma parede de empresa. 29 \(\quad\) Eu me arrepiava a cada vez que ouvia a sentença: 30 "Fulana é gentinha". E a análise crítica vinha com a 31 benevolência de quem não tinha o intuito de ofender. 32 "Coitada da Fulana, não era culpa dela." 33 Até o gênio Millôr Fernandes caiu na tentação de 34 escrever que quem gostava de viajar era gentinha, e 35 entendi que ele estava fazendo uma piada (ruim) sobre 36 o turista que não busca conhecimento e imersão, e sim 37 que percorre 10 países em uma semana, como se 38 todos tivessem oportunidade de voltar à Europa várias 39 vezes numa vida; e assim a palavra foi expandindo 40 seus significados e estigmatizando meio mundo: quem 41 dança com os braços para cima, quem coloca gelo na 42 taça de vinho, quem fala "gratidão" e mais uma lista 43 interminável de pecadinhos. 44 \(\quad\) É só dar um rolê pelas redes sociais e você vai 45 descobrir aquilo que também torna você gentinha 46 — mesmo que, entre "nós", estigmas não colem, entra 47 tudo para a caixa das excentricidades. 48 \(\quad\) O ótimo livro da Tati não usa esta palavra 49 medonha nem uma única vez. Ninguém mais usa, 50 espero. A Odete Roitman versão 2025 talvez a 51 desenterre, e pagará mico, pois está vindo de um 52 passado em que adorávamos odiar os esnobes — 53 hoje, os desprezamos, o que é muito mais letal. 54 \(\quad\) Que os humilhantes diminutivos desapareçam, e 55 viva a Tati, que escreveu um livraço.
Autora: Martha Medeiros.
Acerca de aspectos gramaticais diversos, analise as partes que seguem:
(1a parte): pirâmide (/.76) é uma proparoxítona; análise (l.30) é uma paroxítona; ninguém (/.13) é uma oxítona. (2a parte): a palavra moderação é um sinônimo de parcimônia (/.12). (3a parte): À linha 14, os travessões poderiam ser substituídos por vírgulas. (4a parte): A palavra livraço (/.55) está no grau superlativo absoluto analítico de superioridade.
Das partes, NÃO se pode afirmar que: