Questão
ID 106603Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Comparação
Ano: 2025 Banca: FUNDATEC - Fundação Universidade Empresa de Tecnologia e Ciências Órgão: Prefeitura Municipal de Marau
O morador
Por Rubem Braga
- \(\quad\) De repente me ocorre que estou cansado de morar nesta casa. Durante demasiados anos
- vivi de casa em casa, de quarto em quarto, de cidade em cidade, para que não sentisse esse
- desgosto sutil de estar parado na mesma esquina, embora quieta, embora boa. Minha vida
- aportou aqui sem dizer que ia ficar, tal como a canoa do pescador que para junto a uma pedra,
- sem saber se é por meia hora ou pelo dia inteiro.
- \(\quad\) Aos poucos me levantei. As caras permanentes da rua foram se fixando no fundo de meus
- olhos. Um dia encontrei, no centro da cidade, um empregado do armazém da esquina e achei
- tão absurdo vê-lo ali como se, entrando em um Ministério eu encontrasse, no gabinete, o gato
- ruivo de minha vizinha. Custei a reconhecer a cara familiaríssima do rapaz. Seria, talvez, um
- garçom de Belo Horizonte ou o funcionário de um jornal de Porto Alegre... Não consegui
- descobrir. No dia seguinte ele passou sob a minha janela, como passa várias vezes por dia, em
- sua bicicleta, e tive um sobressalto. Também já me aconteceu cumprimentar, distraído, na saída
- de um cinema, uma moça loira de pele muito queimada; cumprimentei-a sem saber exatamente
- quem era, mas sentindo que era uma pessoa muito conhecida, talvez irmã de algum amigo. Ela
- respondeu de um modo meio reticente, meio surpreso. Fiquei embaraçado. Depois, descobri que
- não tenho relações com essa moça, apenas a conheço de vista, da minha rua, onde nunca me
- ocorreria cumprimentá-la.
- \(\quad\) O mecanismo da cordialidade humana não é muito simples. Sempre corro o perigo de
- cumprimentar efusivamente, quando encontro, de súbito, um desafeto qualquer: antes de me
- dar conta de quem se trata, eu o saúdo porque é uma cara conhecida. Mas, a rua subitamente
- me cansa. Parece que sou escravo de seus hábitos. Sei precisamente a hora em que a “vaca
- leiteira” aparece e as empregadas das casas saem apressadas, de latas e garrafas na mão, para
- a pequena fila de leite; conheço todos os pregões e os carteiros, os meninos que esperam o
- ônibus do colégio, o apartamento que fica aceso ao longo das madrugadas. Conheço até alguns
- automóveis e os fregueses do boteco perto do mar, o idiota com quem os moleques mexem, a
- mocinha tão bonita que de repente ficou magra, triste, esquisita... Sem indagar, sem na
- realidade saber o nome de ninguém, vou sem querer considerando tudo isso como parte de
- minha própria vida. Seria doce mudar, de casa ou de país.
- \(\quad\) Sei, por experiência, que tudo isso que parece tão estabelecido em minha vida se diluirá
- com facilidade e até o número da casa e do telefone serão esquecidos, e toda essa gente e todas
- essas coisas se apagarão em lembranças remotas. Como sempre, voltando um dia por acaso a
- esta esquina, é possível que eu tenha alguma saudade, mas bem maior será o secreto prazer de
- pensar que me livrei de tudo, das ternuras e aborrecimentos desta rua, que tudo ficou para trás
- como uma estação sem interesse, apenas mais uma estação, nesta viagem em demanda de
- coisa alguma.
(Disponível em: cronicabrasileira.org.br/cronicas/20236/o-morador – texto adaptado especialmente para esta prova).
No trecho “Minha vida aportou aqui sem dizer que ia ficar, tal como a canoa do pescador que para junto a uma pedra, sem saber se é por meia hora ou pelo dia inteiro.” (l. 03-05), qual figura de linguagem está presente no trecho e qual é o seu efeito de sentido?