Questão 106002

Língua Portuguesa · 2025

Questão

ID 106002

Disciplina: Língua Portuguesa

Assuntos: Comparação, Eufemismo, Metonímia, Metáfora

Ano: 2025 Banca: DIRENS AERONÁUTICA - Diretoria de Ensino da Aeronáutica Órgão: Ministério da Defesa - Aeronáutica


TEXTO IV


O trecho a seguir é um fragmento extraído do artigo “O Alienista: loucura, poder e ciência.”


O corpo da disciplina


A loucura do Alienista não é uma tragédia somente pessoal. Ele assumiu em seu corpo, coerentemente, todos

os projetos científicos da época - e isso o levou ao desastre. Mas uma coisa é certa: eram projetos científicos.

5 Enlouquecidos, talvez, mas colados ao discurso positivista.

Tratava-se de “estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhes os casos, descobrir,

enfim, a causa do fenômeno e o remédio universal”

10 (p. 256). Projeto partilhado por inúmeros colegas de Bacamarte, tanto de ontem quanto de hoje. Projeto

elevado, acima de interesses pessoais ou busca de honrarias: “trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma

experiência científica” (p. 260). Experiência assumida com

15 todos os cuidados e escrúpulos exigidos pela ciência:


Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia (sic); nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares - (diz ele ao boticário Crispim) - senão

20 uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto de meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão;

começo a suspeitar que é um continente (p. 260)

25

A ciência, adverte o texto, não está livre de pretensões enlouquecidas, que não são exclusivas de Simão Bacamarte, aliás. Não se trata apenas de investigar (um investigar sem pretensão e metafísico), mas de

30 conquistar. A ilha perseguida se revela um continente - o universo acanhado de Itaguaí se amplia, universaliza-se ao toque mágico da abstração científica. E, metáfora

geográfica, diante deste continente, o Alienista se coloca como um cavaleiro andante.

35\(\quad\) Mesmo que se queira evitar, em vários momentos nos invade a mente a imagem do Quixote. E nem lhe falta um Sancho Pança na figura servil, medrosa e chã de Crispim

Soares, que seria a imagem vivaz do vulgo. Em seus combates, Bacamarte cruza lanças não contra moinhos de

40 vento ou cavaleiros andantes, mas contra teorias e ideias (sic) vulgares - as quais, submetidas a seu espírito privilegiado, acabam se revelando igualmente fantasmagóricas. Desastrado e delirante como Quixote, sua

empreitada também terminará em morte. Mal erguia seu

45 próprio mito, a ciência já encontrava um quixote-alienista para lhe apontar seu fim (enquanto meta e enquanto morte) - mas, no caso, os quixotes eram multidão triunfante, não só na ciência, mas também na política e nas artes. Enquanto o

século delirava, Machado limitava-se a compor seu texto.

50\(\quad\) E, nele, o projeto do Alienista ganha corpo:


Supondo o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos

55 definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí, insânia e só insânia (p. 261).


Pe. Lopes, a quem o Alienista confia a nova teoria, vê nela

60 um absurdo, ou, pelo menos, uma tarefa colossal. Mas nada pode resistir ao triunfo da ciência. Para o esperto e assustado

padre, a tarefa do Alienista tem dupla face: é absurda, pois assim a vê do ângulo da teologia cristã, certamente alarmado

com o pecado que é a pretensão de se desvendar a última

65 razão dos mistérios da mente humana: soberba e sacrilégio, desejo satânico de ser Deus [...].


(Adaptado de: GOMES, Roberto. O Alienista: loucura, poder e ciência. Tempo social. Rev, Sociol. USP. São Paulo Paulo,v. 5 (1-2): 156-157, 1993)

Analise o seguinte enunciado do texto IV:


“A loucura, objeto de meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão. Começo a suspeitar que é um continente [...]” (l. 22 - 24)


Considerando o enunciado acima, no que se refere ao seu (con)texto, o locutor empreende relações entre alguns elementos, por meio de figuras de linguagem, para atribuir sentido ao termo loucura, cujos termos correspondentes são

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