Questão 105231

Língua Portuguesa · 2025

Questão

ID 105231

Disciplina: Língua Portuguesa

Assuntos: Análise das estruturas linguísticas do texto, Dêitico, Inferência Textual

Ano: 2025 Banca: FUNDATEC - Fundação Universidade Empresa de Tecnologia e Ciências Órgão: Prefeitura Municipal de Porto Alegre


Talvez uma das ignorâncias que temos, quando o assunto é o futuro, seja acreditar sobremaneira nele

\(\quad\)

Por Mário Corso

\(\quad\)

01 \(\quad\) O tempo é algo tão abstrato que precisamos de suportes espaciais para concebê-lo.

02 Pensamos o passado como estando às nossas costas, pois o futuro estaria à nossa frente, tanto

03 que caminhamos em sua direção. Isso nos parece tão óbvio que nem nos ocorre que possa ser

04 uma construção cultural.

05 \(\quad\) Os Aymaras, a segunda maior etnia ameríndia da América do Sul, pensam de outra forma.

06 Eles percebem o passado estando à frente, logo, o futuro estaria atrás. O argumento deles para

07 esta inversão é muito bom. O passado foi visto, nossos olhos testemunharam-no. Do futuro

08 não sabemos, somos cegos pra ele, da mesma forma que não enxergamos o que está atrás de

09 nós.

10 \(\quad\) O pensamento aymara também usa o apoio espacial, mas o fundamento está na percepção visual.

11 Na verdade, é mais do que isso, o que sabemos do passado é uma operação cognitiva mais

12 ampla, e é este ponto a que eles se referem. O passado é conhecido (visto); o futuro,

13 desconhecido (invisível).

14\(\quad\) De alguma forma intuímos isso. O escritor inglês Samuel Taylor Coleridge usou mais de

15 uma vez o mote da lanterna de popa para se referir ao modo como experienciamos a vida. Ele

16 pede para imaginarmos um barco viajando na noite, só enxergando por onde passou.

17 \(\quad\) Como a lanterna está atrás (popa), não ilumina o caminho que está à frente (proa). Ele usa

18 a metáfora para dizer que navegamos em direção ao futuro, mas só compreendemos o passado.

19 Em outras palavras, os olhos do entendimento estão na nuca.

20 \(\quad\) A maior vantagem de estudar outras culturas está em entender melhor a nossa. Passamos

21 a perceber que algo que damos como natural pode ser apenas uma convenção cultural. Ou seja,

22 é a nossa forma de entender um ponto, e não a única, e nem sempre a mais rica para ajudar o

23 pensamento.

24 \(\quad\) Como temos uma tecnologia muito mais avançada, olhamos para os povos autóctones com

25 soberba, como se eles não tivessem nada a nos ensinar, ou a nos fazer pensar. Talvez uma das

26 ignorâncias que temos, quando o assunto é o futuro, seja acreditar demais nele, a tal ponto

27 de desprezar o que vem do passado. Afinal, é lá que habita a experiência, não só a dos

28 velhos, mas a dos povos antigos, que tantos futuros afoitos apagaram do nosso acervo de

29 saberes.

\(\quad\)

(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/mario-corso/noticia/2024/10– texto adaptado

especialmente para esta prova).

Analise as assertivas a seguir, relativas a determinadas passagens do texto:


I. O autor do texto, ao utilizar, por exemplo, o pronome “nossa” (l.20) e a forma verbal “temos” (l.26), acrescenta ao texto a ideia de que ele compartilha das ideias apresentadas nos respectivos períodos em que os vocábulos estão inseridos.

II. Em “Talvez uma das ignorâncias que temos [...]” (l. 25-26), o uso da palavra “uma” permite inferir que há outras ignorâncias além da que vai ser citada.

III. O advérbio pronominal “lá” (l.27) faz referência à expressão “futuro” (l.26).


Quais estão corretas?

Alternativas da questão 105231
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