Questão
ID 105082Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Classificação e Emprego das Interjeições
Ano: 2025 Banca: PS Concursos Órgão: Prefeitura Municipal de Turvo
Leia o texto abaixo para responder às próximas questões:
Cuia
\(\quad\) Lindaura, a recepcionista do analista de Bagé ― segundo ele, “mais prestimosa que mãe de noiva” ―, tem sempre uma chaleira com água quente pronta para o mate. O analista gosta de oferecer chimarrão a seus pacientes e, como ele diz, “charlar passando a cuia, que loucura não tem micróbio”. Um dia entrou um paciente novo no consultório.
\(\quad\) ― Buenas, tchê ― saudou o analista. ― Se abanque no más.
\(\quad\) O moço deitou no divã coberto com um pelego e o analista foi logo lhe alcançando a cuia com erva nova. O moço observou:
\(\quad\) ― Cuia mais linda.
\(\quad\) ― Cosa mui especial. Me deu meu primeiro paciente. O coronel Macedônio, lá pras bandas de Lavras.
\(\quad\) ― A troco de quê? ― quis saber o moço, chupando a bomba.
\(\quad\) ― Pues tava variando, pensando que era metade homem e metade cavalo. Curei o animal.
\(\quad\) ― Oigalê.
\(\quad\) ― Ele até que não se importava, pues poupava montaria. A família é que encrencou com a bosta dentro de casa.
\(\quad\) ― A la putcha.
\(\quad\) O moço deu outra chupada, depois examinou a cuia com mais cuidado.
\(\quad\) ― Curtida barbaridade. ― Também. Mais usada que pronome oblíquo em conversa de professor.
\(\quad\) ― Oigatê.
\(\quad\) E a todas estas o moço não devolvia a cuia. O analista perguntou:
\(\quad\) ― Mas o que é que lhe traz aqui, índio velho?
\(\quad\) ― É esta mania que eu tenho, doutor.
\(\quad\) ― Pos desembuche.
\(\quad\) ― Gosto de roubar as coisas.
\(\quad\) ― Sim.
\(\quad\) Era cleptomania. O paciente continuou a falar, mas o analista não ouvia mais.
\(\quad\) Estava de olho na sua cuia.
\(\quad\) ― Passa ― disse o analista.
\(\quad\) ― Não passa, doutor. Tenho esta mania desde piá.
\(\quad\) ― Passa a cuia.
\(\quad\) ― O senhor pode me curar, doutor?
\(\quad\) ― Primeiro devolve a cuia.
\(\quad\) O moço devolveu. Daí para diante, só o analista tomou chimarrão. E cada vez que o paciente estendia o braço para receber a cuia de volta, ganhava um tapa na mão.
Luis Fernando Veríssimo
Os vocábulos “Oigatê” e “Oigalê” são bastante representativos do vocabulário gaúcho, principalmente longe dos grandes centros. Essas palavras expressam alegria e/ou satisfação e estão classificadas morfologicamente como: