Questão
ID 1043555Disciplina: Língua Portuguesa
Assunto: Classes Morfológicas da Palavra "Que"
Ano: 2024 Banca: Avança SP - Instituto Avança São Paulo Órgão: Prefeitura Municipal de Paraty
Leia o texto a seguir para responder às questões de 1 a 6.
Seu Afredo
Seu Afredo (ele sempre subtraía o “1” do nome, ao se apresentar com uma ligeira curvatura: “Afredo Paiva, um seu criado...”) tornou-se inesquecível à minha infância porque tratava-se muito mais de um linguista que de um encerador. Como encerador, não ia muito lá das pernas. Lembro-me que, sempre depois de seu trabalho, minha mãe ficava passeando pela sala com uma flanelinha debaixo de cada pé, para melhorar o lustro. Mas, como linguista, cultor do vernáculo e aplicador de sutilezas gramaticais, seu Afredo estava sozinho.
Tratava-se de um mulato quarentão, ultrarrespeitador, mas em quem a preocupação linguística perturbava as vezes a colocação pronominal. Um dia, numa fila de 6nibus, minha mãe ficou ligeiramente ressabiada quando seu Afredo, casualmente de passagem, parou junto a ela e perguntou-lhe a queima-roupa, na segunda do singular:
— Onde vais assim tão elegante?
Nos lhe dávamos uma bruta corda. Ele falava horas a fio, no ritmo do trabalho, fazendo os mais deliciosos pedantismos que já me foi dado ouvir. Uma vez, minha mãe, em meio a lide caseira, queixou-se do fatigante ramerrão do trabalho doméstico. Seu Afredo virou-se para ela e disse:
— Dona Lidia, o que a senhora precisa fazer é ir a um médico e tomar a sua quilometragem. Diz que é muito bão.
De outra feita, minha tia Graziela, recém-chegada de fora, cantarolava ao piano enquanto seu Afredo, acocorado perto dela, esfregava cera no soalho. Seu Afredo nunca tinha visto minha tia mais gorda. Pois bem: chegou-se a ela e perguntou-lhe:
— Cantas?
Minha tia, meio surpresa, respondeu com um riso amarelo:
— É, canto as vezes, de brincadeira...
Mas, um tanto formalizada, foi queixar-se a minha mãe, que lhe explicou o temperamento do nosso encerador:
— Não, ele é assim mesmo. Isso não é falta de respeito, não. É excesso de... gramatica.
Conta ela que seu Afredo, mal viu minha tia sair, chegou-se a ela com ar disfarçado e falou:
— Olhe aqui, dona Lidia, não leve a mal, mas essa menina, sua irmã, se ela pensa que pode cantar no radio com essa voz, ta redondamente enganada. Nem em programa de calouro!
E, a seguir, ponderou:
— Agora, piano é diferente. Pianista ela é!
E acrescentou:
— Eximinista pianista!
MORAES, V. Seu Afiredo. In: Para uma menina com uma flor. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 65-66.
Em “[...] porque tratava-se muito mais de um linguista que de um encerador.”, a palavra “que” é empregada como um(a):